domingo, 31 de outubro de 2010

TORTOSENDO’60: uma jornada de redescobertas



Foram chegando... devagar, devagarinho... mas chegaram! Uns mais expansivos que outros, o que roça a normalidade, mas todos com uma grande expectativa em relação ao que os esperava e ao que ía acontecer... E o que aconteceu foi bom, porque além do trabalho da equipa organizadora todos teimaram em dar o seu insubstituível contributo para que tudo corresse bem e todos se sentissem à vontade e partipantes de pleno direito nesta festa de encerramento dos 60 anos de presença da SVD em Portugal. Olhámo-nos e vimos – apesar de se ouvir muitas vezes as frases “estás igual”, “não mudaste nada”, os cabelos é que estão um pouco mais brancos”... - que não estamos na mesma nem em relação ao ano passado e muito menos em relação às dezenas que já lão vão, depois da nossa passagem pela SVD. Mas, soa bem e adoça os ouvidos e a vaidade!
E, digo isto porque todos vimos muitas carecas ou meias-carecas a brilhar, ouvimos muito discurso saudosista e revivalista, por detrás do qual se escondem as memórias mais vivas do que foi a passagem pela “nossa” instituição.
A maior parte de nós estamos-lhe infinitamente gratos outros ainda não conseguiram digerir nem integrar o fel amargo de algumas injustiças de que foram vítimas. Compreendemo-los e ninguém lhes leva a mal por não quererem estar presentes, mas que gostávamos de os ver por cá, lá isso gostávamos e tenho quase a certeza de que eles próprios se sentiriam bem ao olhar para aquelas paredes, janelas salas e corredores, campos, refeitório e cozinha, que lhes lembrariam muitas coisas boas e interessantes. Mas a vida é assim mesmo... A nossa, como a de todos os humanos (ricos e pobres, sábios e ignorantes) é feita de pequenas e triviais realizações, cuja maior grandeza está na sua pequenez e na sua simplicidade: aliás, o segredo das grandes vidas!
Estávamos muitos e bons (perdoem a imodéstia)! E fizémos, com a ajuda da solidariedade que cultivamos, os milagres da multiplicação dos pães e da amizade, que são os mais belos e significativos, porque promovem a alegria do coração, o olhar e o gesto da ternura e o prazer do braço e do abraço.
Para além da casa que tão simpaticamente nos acolheu, quero referir a celebração da fé, que sempre nos ajuda a alargar horizontes e a procurar ou lembrar outras referências e que, juntos, celebrámos com muita dignidade e musicalmente afinada (o que não é pouco!), certamente mais mais fruto da alma do que do ensaio.
Uma palavra de especial simpatia para com a dona Maria Octávia. Quis estar presente e via-se e sentia-se que estava feliz por tanta gente se lembrar dela com tanto respeito e carinho.
Agora que redescobrimos o caminho e experimentámos que o encontro é bem mais do que comer e beber... mas também abraçar, celebrar, estar, olhar e recordar a desculpa fica mais difícil de arranjar... para não ir. Jj-a

LISTA DE PARTICIPANTES NO ENCONTRO DO TORTOSENDO

30 de OUTUBRO de 2010

ANTERO N PAULO + 5 CONVIDADOS‎
ADELINO GOMES
AGOSTINHO SILVA
ALCINO FARIA E ESPOSA
ÁLVARO GIL BOUCHO SOARES
ANTÓNIO BARATA E ESPOSA
ANTÓNIO BRITO
ANTÓNIO CâNDIDO
ANTÓNIO CASIMIRO E ESPOSA
ANTÓNIO ESTEVES ROSINHA E ESPOSA
ANTÓNIO FERRAZ MOURA
ANTÓNIO JOSÉ SILVEIRA
ANTÓNIO LEAL SANCHES
ANTONIO M PEREIRA ANTUNES‎
ANTÓNIO MADEIRA ANTUNES
ANTÓNIO NATÁRIO GOMES‎
ANTÓNIO PAULOS E ESPOSA
ANTÓNIO PINTO DIOGO
ARMINDO CACHADA
ARTUR LEITE E ESPOSA
CARLOS ALMEIDA
CARLOS GUIMARÃES E ESPOSA
CLAÚDIO MIGUEL SANTOS
DANIEL ESTEVES REIS (BOGAS)
EDUARDO MOUTI.FERREIRA SANTOS
EMÍLIO AUGUSTO BÁRBARA BARROSO
FAUSTO HERCULANO B BAPTISTA
FERNANDO AUGUSTO BATISTA LOPES
FERNANDO AUGUSTO BRAGA
FERNANDO DAS NEVES BAPTISTA
FERNANDO MATEUS DIAS CARVALHO
FRANCISCO MAGUEIJO + ESPOSA
IRMÃO JOSÉ JESUS AMARO
ISMAEL ANTUNES REIS
JOÃO AUGUSTO NEVES BAPTISTA
‎JOÃO LOURENÇO + 4 CONVIDADOS
JOÃO MANUEL SERRA DUARTE
JOAQUIM JOSÉ CORISTA + ESPOSA
JOAQUIM JOSÉ NUNES PORTAS
JOAQUIM LOURENÇO BRÁZIA
JOAQUIM NABAIS+ ESPOSA+NETA
JOAQUIM TRINDADE DOS SANTOS
JORGE SILVA MARTINS+ ESPOSA
JOSÉ ALBERTO J GONÇALVES(TRIGAIS)
JOSÉ ANTÓNIO NETO GRANCHO
JOSÉ ANTUNES CERDEIRA
JOSE CARLOS PROENÇA COSTA
JOSÉ EDUARDO ANJOS LEAL
JOSÉ FERNANDES
JOSÉ FREIRE
JOSÉ HENRIQUES DA FONSECA
JOSÉ LOPES NUNES
JOSÉ LUCIANO VAZ MARCOS
JOSE LUIS GONÇALVES AGOSTINHO
JOSÉ MANUEL FORTUNATO CANHOTO
JOSÉ MANUEL MELEIRO ALVES NEVES
JOSÉ MANUEL TEIXEIRA DIAS
JOSÉ MARIA RAMOS FREIRE
JOSÉ MENDES LOPES MARCELO
JOSÉ NEVES DA COSTA
JOSÉ PINTO SIMÕES DA CUNHA
JOSÉ QUELHAS
JOSÉ SANTOS DINIS
JOSÉ TEODORO PRATA
LEONEL FEITEIROFRANCISCO
LICÍNIO MANUEL MENDES DUARTE
LUIS CANELO
LUIS CEREJO
LUIS MANUEL G. BOGALHEIRO
LUIS NATÁRIO
MANUEL CARLOS ROCHA PEREIRA
MAURÍCIO ESTEVES MELFE
MESSIAS GOMES + ESPOSA
NUNO CARAMELO
NUNO MOTA GIL
OCTÁVIO RAMIRES VINHAS
‎PAULO BRÁS
Pe ELÍSIO
Pe JOSÉ ANTUNES (Provincial)
Pe RAFAEL
Pe SALDANHA
Pe SOARES
PEDRO BAPTISTA
PEDRO VAZ
PROFESSORA OCTÁVIA
RICARDO FIGUEIRA
RICARDO MONTEIRO DIAS
RUI FREIRE
TADEU MARCELO BATISTA BARATA
TIAGO SILVA
VASCO RICARDO SOARES
VIRGÍLIO DOMINGOS SANTOS
VITOR M CARMO BAPTISTA
VITOR MANUEL ALVES GREGÓRIO

91 ANTIGOS ALUNOS + 22 CONVIDADOS(ESPOSAS+FAMILIARES)
= 112 PARTICIPANTES


Muito obrigado a todos os participantes pela alegria e boa companhia!!!

Agradecimentos muito especiais ao José Canhoto (boa pinga), Quim Serra Carvalho (excelente pastelaria) e Zé Henriques (carne tenra da serra da Malcata).

Tortosendo? Bom... como sempre!

Para aguçar o apetite a todos deixo uma foto que diz muito do sentimento que reinou este sábado no Tortosendo.


Passou da centena, os que de norte a sul do país, quiseram dizer presente em mais um dos encontros "rijos" dos Beirões que têm orgulho e vaidade do seu passado e que se encontraram hoje  na casa do Verbo Divino do Tortosendo. Outros se lhes juntaram com o mesmo espírito verbita que nos une, independentemente da sua casa mãe.

Já me tinham dito e eu acreditava, mas desta vez vivi! E, aquilo em que eu acreditava, em muito pouco se assemelhava ao que vivi.

Assiti a uma Eucaristia que me emocionou, pelo local, pelos presentes e pelos celebrantes. Fizemos um almoço como só os beirões sabem, cheio de alegria e memórias à mesa. Tivemos uma tarde de arromba, como já não passava, faz muito tempo. Por tudo isso, o foguete do José Eduardo foi curto para tanta emoção, mas suficiente para deixar "esvoaçar" e estalar alto o que nos vai no coração.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sugestões da Valenciana

1. Pelo que me parece, a Valenciana primeiro apetrechou estômagos e depois inspirou mentes. Já li, já vi e ouvi e de tudo o que se disse, e não foi pouco, ficou-me a ideia “peregrina”, provavelmente, de que se está a entrar numa discussão parecida com a que, há anos, se vem travando no seio dos Ex’s SVD sobre a não adesão do grupo da Beira Interior à AAVD. Sempre a achei, com todo o respeito por quem diferente pensar, uma questão menor, de lana caprina mesmo. A uma associação só pertence quem quer e não é por pertencer a ela ou não que se cortam as raízes que a todos nos ligam à SVD. Também todos sabemos que entre nós há os “institucionalistas” (dentro da SVD observa-se o mesmo) que sonham com uma associação forte, numerosa, activa, com as cotas em dia, com capacidade organizativa e mobilizadora e outros (também os há na SVD) mais livres e libertos que, sem a hostilizarem, preferem ir por outros caminhos: vão-se juntando, de vez em quando, para dizer/fazer duas coisas, mas sem compromissos de maior, pois já bastam os que a vida impõe no dia-a-dia. Ou usando a linguagem do Nicolau Marques: há os “substantivos” e os “advérbios”. São duas maneiras legítimas de estar na vida em relação a isto e a muitas outras coisas.

2. Gosto sempre de ouvir falar em transformar/mudar o mundo e dos sonhos que sobre tal projecto nos assaltaram na nossa infância e adolescência. Penso que também eu terei sido bafejado com tais piedosos e profundos desejos. Hoje, não acredito que sejam desejos de infância, mas acredito que sou convidado a mudar o mundo pelo próprio mundo e por todos aqueles com quem partilho esta CASA COMUM. Mas este mudar já não é através do modelo quixotesco do escudo e da espada, mas através da minha mudança (daquela que opero em mim com a ajuda dos outros). Eu mudo o mundo mudando-me a mim e disso não estou dispensado, porque ninguém me pode dispensar! E a mim, verdadeiramente, só eu me posso mudar! E não é difícil constatar que à medida que me mudo e transformo numa pessoa melhor este mundo passa a ser também ele um pouquinho (muito pequeno é certo) melhor. E é este o grande desafio que se nos coloca a “substantivos” e “advérbios”. E não podemos recusá-lo, pois se o fizermos este mundo fica mais pobre e menos “melhor”. Jj-a

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Da Natureza do Sabor.


Nicolau Marques

Ao ouvir a intervenção do nosso Daniel Reis no último encontro (que, curiosamente, não está longe das respostas que eu próprio dei às perguntas do convidado e bem aparecido António Colaço) lembrei-me da sábia cautela ditada por Michael Oakeshott : A conjunção do sonho com o poder degenera necessariamente em tirania
Por certo, o motivo da tão lapidar sentença deste pensador desaparecido há 20 anos, e que alicerçou o seu cepticismo em relação aos esquemas metafísicos abstractos tão do agrado do idealismo racionalista continental nos ensinamentos da tradição e na sensatez do empirismo britânico, é o rescaldo das trágicas aventuras políticas ensaiadas pelos europeus no séc. XX, a partir, por exemplo, de Berlim, de Roma, de Moscovo. Na verdade, propõe o céptico inglês, a ideia de que todas as associações deverão ter um carácter instrumental (providenciar e gerir meios em vista de um fim previamente determinado) não só não faz justiça à associação civil - propriamente, “respublica” (…nada de confundir com os delírios românticos impostos por meia dúzia de burgueses de cartola há 100 anos cá no reino, tanto mais que a monarquia pode e deve ser uma “respublica”) - como tem o efeito perverso de alimentar os mais trágicos devaneios colectivos: seja em vista de um fim económico, político, moral, religioso, étnico.  A associação civil não será, por conseguinte, um elenco de objectivos substantivas (concretos, identificados, definidos) mas apenas um quadro de referência adverbial capaz de legitimar (ou inibir, claro) a miríade de incontornáveis propósitos individuais.  
O “Sabor da Beira”, em boa hora gerado pelo nosso Bito-Que, como nele me entendo (e se nele bem me entendo, obviamente) retira toda a sua virtualidade desse seu carácter adverbial e não substantivo. É uma associação civil, afinal. Que visa o “Saber da Beira”? Nada em concreto e tudo o que cada um dos seus membros quiser: a satisfação do reencontro periódico passadas décadas (… e que nele se esgotará); o relembrar de momentos gratos da adolescência; a catarse de pequenos traumas que os anos, ainda assim, não puderam resolver; a satisfação de ouvir de condiscípulos o louvor a mestres que nós próprios não soubemos fazer; a mobilização para o arranjo de um telhado;  a dissertação sobre a secreta proveniência do medronho que o Fernando, mais uma vez, providenciou;  o humor sadio a propósito do avanço desta calvície ou daquele abdómen; a azáfama do Pinto para que as quotas e listas da AAVD fiquem em dia; os cantares desgarrados enquadrados pela concertina do Freire; a proposta de reunir as criações musicais de alguém entretanto desaparecido; a comparação da entremeada que agora se degusta com o naco de vitela que há dois meses se apreciou; etc. Pouco, portanto. E, todavia, muito: determine-se uma meta que a comprometa substantivamente e, a prazo, será uma associação do passado. Mais uma. E dessa ameaça nos quererá prevenir o avisado Daniel.
N.M.

Conversas à volta da mesa

Pois é, o Colaço, para além da visita que nos fez, deu-nos um "bigode"! Não foi o dele, que o levou, inteirinho, para sua casa.

Aqui vão mais uns dedos de conversa:


E, um "Vai de Roda"!

domingo, 24 de outubro de 2010

....há três ou quatro amigos, que são como irmãos!

Vitor Baptista

O António Colaço, afinal não veio apenas fazer uma visita de cortesia! Ajudou-nos, na sua discrição, a reflectir no sentido destes nossos encontros e desta nossa tertulia, de uma forma diferente. A minha surpresa esta manhã, quando visitei o animus, porque já adivinhava que iria encontrar alguma coisa diferente, foi uma entrevista "intimista" com o Daniel Reis, na pacatez do recanto que ambos partilharam durante o jantar.

A conversa foi correndo, confesso que as pedradas do Daniel (eu comparo as palavras às pedras - é a minha costela da terra do volfrâmio!), às vezes me acertaram em cheio e me fizeram o coração bater mais forte. Tomei coragem, e dei, de novo, o corpo às pedras, repetindo a dose. Assumo que não foi fácil, até porque o Daniel tem uma pontaria do caraças, não sei se em Bogas, com um pedaço de xisto acertava numa casa? Aqui, vos garanto, que acerta!

(Pensei) ....então, ando para aqui, com uns quantos... poucos, que para isto também não há quem, (não é Colaço?) a organizar umas reuniões, que têm umas, forma de jantar, outras de forma de almoço, mas que mais não querem do que trazer para o convívio as velhas amizades e este maduro saí-me com com uma destas? Ainda por cima para a "concorrência"? Fiquei chocado na minha puerilidade nestas coisas da amizade. Mas, usando uma linguagem mais taurina, há as chocas e há os choques, eu prefiro os últimos, sobretudo quando os enfrentamos de frente e com galhardia. As palavras do Daniel fizeram-me ressoar, qual sino da nossa aldeia, esse desafio para continuar a repensar a forma de fazer as coisas, deixando o espaço dos outros, ser o seu espaço, traçando/atravessando a intercepção dos círculos com cuidado e com respeito.
E, o que é mais importante, é que que ainda há três ou quatro amigos nesse círculo... e que o maior desafio é ir alimentando e fortalecendo esse e outros círculos a que cada um pertence.

Dany, uns dias atrás, "alcunhei-te" de <<O INEVITÁVEL>>... só agora percebi porquê.
Obrigado Colaço!

Reportagem e imagem: António Colaço

Convívio Valenciana II

Aguardando pelas prosas dos convivas, podemos já ver algumas imagens. É incrível como não consegui nenhuma foto do José Gil, que apareceu a pela primeira vez. Maldito tabaco, ou descuido meu? Gil... já tens um motivo para a próxima.... a foto!

Errata: no final deste video diz que nos reencontraremos sábado 31!!!! ATENÇÃO SÁBADO, É DIA 30! (Obrigado afilhado!... sempre alerta! Era para ver se alguém chegava ao fim do vídeo!!!!!)

sábado, 23 de outubro de 2010

Convivio na Valenciana

Enquanto não chegam as redacções prometidas e as fotos (provavelmente já chegou tudo... eu é que só agora posso dedicar-me um pouco mais ao acontecimento!), o nosso amigo António Colaço teve a amabilidade de nos fazer uma visita, como prometeu, e foi mais um dos nossos, de corpo e alma! Aproveitou para fazer uma fotos e uns videos e autorizou a su publicação aqui, o que desde já agradecemos. 
Respondendo ao Amaro, através do amigo Colaço podes já disfrutar de muito do que foi o nosso convívio e convido, todos, a visitar o animus!

Aqui fica um pequeno registo videográfico, amabilidade do Colaço, para memória futura (e o José Dias Gil está encantado a ver/ouvir o Zé (da Veiga) Freire mai'la sua sanfona) :


Imagem e som recolhidos pelo António Colaço.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Abílio e Jesus


José Miguel Teodoro
Boa descoberta, ZTP. E prosa boa de ler.
Duas notas (e uma extra) do meu caderno de apontamentos, sobre o Professor Abílio.
Primeira: Vi-me grego com o Latim, que só vim a finalizar com o hoje meu amigo AnónioVieira. Era impressionante, o professor Abílio –  além de outras habilidades, quando o pessoal tropeçava numa regra ou excepção, era ouvi-lo: “Gramáticas antigas, página X; gramáticas modernas, página Y”. Tiro e queda; lá estava; sem falhar uma, que eu saiba.
Segunda: Num dia de entrega das redacções de Português, um ano antes da grande guerra dos “Lusíadas”, a minha redacção ficou retida, facto que para este jovem recruta só podia significar asneira feita e reprimenda a crédito. “Falamos no fim da aula”, foi a sentença do Mestre; quando todos saíram, numa lástima de medo, aproximei-me disposto a sofrer o castigo. Afinal, pena menor: “A palavra bêbado não se usa numa redacção; podes usar outras”, e deu exemplos. “Outra coisa: continua a escrever, que escreves bem”. Na altura, não soube o que fazer com aquele torrão de açúcar, que agradeço ao Mestre, como afinal o que alguma vez eu soube de Língua Portuguesa.
Nota Extra: Provavelmente para desincentivar alguma tentativa de copianço, o Professor Abílio passava a imagem de que com ele era impossível. Ainda estava para nascer…E contava episódios de tentativas mal sucedidas, de cábulas surpreendidos em flagrante e castigados em conformidade. A mim convenceu-me da sua “invencibilidade” e quero crer que ele também estava seguro dos seus poderes. Um dia descobri que o Luís de Jesus copiava nos pontos de Português, como fazia nos pontos de todas as disciplinas. Apesar de se sentar na carteira da frente, a um braço de distância da mesa do professor. E nunca aconteceu nada. Por causa do apelido do Luís, acho eu: porque há apelidos que são verdadeiros seguros de vida. Ou não.

domingo, 17 de outubro de 2010

Obrigado Zé

Ricardo Figueira

Obrigado Zé por teres a sã ousadia de partilhar connosco alguns momentos tão pessoais e sensíveis da tua passagem pelo SVD.
Obrigado Zé por nos teres proporcionado um momento “zen”. As tuas palavras catapultaram-nos para a nossa meninice, adolescência e juventude. Entrámos num filme em que passámos a ser actores principais com passagens idênticas às tuas. Relembrámos momentos altos e felizes e momentos baixos, tristes e recatados. Todos eles tiveram uma importância marcante na nossa personalidade actual.
Obrigado Zé por teres evidenciado dimensões tão características da personalidade do Pe. Soares. Também eu tive o privilégio de conviver de forma tão próxima com  Pe. Soares em dois anos em que foi meu prefeito em Fátima. Também destaco a sua energia contagiante, o estímulo e encorajamento de forma responsável ao desenvolvimento da nossa autonomia, o apoio aos menos dotados em actividades que mais favoreciam a integração dos alunos, transformando aspectos menos bons em mais valorizados, a capacidade de decisão pelos princípios de justiça e rectidão independentemente de factores alheios que muitas das vezes desfocalizavam do essencial. Embora por vezes tenha sido incompreendido, creio que passados alguns anos, quando assumimos o papel de pais, compreendemos muitos das suas decisões de coragem, sendo sempre pautadas por objectivos pedagógicos para nos tornar Homens. Obrigado Pe. Soares
Obrigado Zé por lançares o repto de ajudar muitos ex-verbitas “a fazer o reencontro positivo com o passado”, gostei desta bela expressão. Linda e ainda actual ao fim de tantos anos. Quando renunciamos ao nosso passado, renunciamos ao nosso presente. Podemos viver a vida de outros, mas não estamos certamente a viver a nossa própria vida, não nos assumimos de forma integral, assim estamos debilitados das nossas raízes, das nossas energias. Seremos sempre peixes a nadar contra a corrente, que esforço inglório quando apenas bastava pormo-nos a jeito. Ainda que não tenha sido fácil para muitos de nós o percurso pelo SVD, deve ser um suplício maior estar constantemente a renegar social e intimamente esta passagem. Acreditem que mesmo aqueles que evidenciam o “reencontro positivo com o passado” também têm tristezas pelo que a sua passagem pelo SVD provocou. Seja o corte abrupto do convívio dos pais, desencadeando um sentimento de profundo abandono, seja as incompreensões, mal-entendidos, quezílias e até, eventualmente, injustiças percepcionadas pelos actos dos pais, dos padres e prefeitos do SVD e até colegas, tudo isto deixou mágoas. Mas não pode continuar a provocar mazelas, amargura e rancor, que nos afaste do essencial, do reencontro connosco próprios. Mesmo que todos os outros nunca tenham feito nada para reparar esta mágoa, mesmo que o “mundo tenha estado todo contra nós”, ainda assim há algo que apenas depende de nós: perdoar. Este sentimento pode libertar…
Obrigado Zé por partilhares connosco o orgulho de teres passado pelo SVD. Tantos colegas, padres e prefeitos tornados amigos apenas porque passámos pelo SVD. Que tamanha riqueza. Tantos momentos felizes de saudável camaradagem durante e após a nossa passagem apenas porque passámos pelo SVD. Que tamanha sorte. Tantos valores, princípios e acções que nos foram transmitidos apenas porque passámos pelo SVD e que se têm revelado de incalculável utilidade como orientação e rumo nos dias e tempos de maiores agruras. Que tamanhas estrelas iluminadas!
Obrigado Zé por questionares se na nossa vida damos testemunho de fé e mantemo-nos fiéis às nossas origens e vivências. Independentemente de sermos católicos, praticantes ou não, ateus, agnósticos, de outras religiões e até de outras categorias que não encaixam em nenhuma destas, há algo que devemos sempre procurar praticar: a reprodução dos valores, dos princípios e das acções que apreendemos no SVD. Na igreja ou fora dela, na comunidade mais próxima ou mais distante, numa actividade profissional ou até lúdica, temos inúmeras oportunidades de fazer aquilo que consideramos o mais correcto e não o mais fácil. Acredito fortemente que desde as acções mais altruístas de vidas dedicadas à ajuda ao próximo até às mais simples acções de respeito ao outro, mas não menos nobres, estão ao alcance de todos. Não foi este um dos grandes pilares do nosso missionário SVD?
Obrigado Zé por teres colocado os Três Povos no centro da “agenda política” dos ex-verbitas. Terra de grandes produções quantitativas e mesmo qualitativas, como o teu texto tão bem o testemunha.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Heterodoxias 2 (III)

Nicolau Marques
De acordo, amigo Zé. Em quase tudo. 

Na verdade, se a dificuldade (que partilhamos) em afirmar de modo categórico que houve uma descristianização da sociedade (que pode ser sustentada pela constatação de, ainda assim, apesar de os templos estarem mais vazios, serem hoje encontráveis mais "franciscos", "amélias" e “joãos” [… ou será “joões”? :)] do que há uma ou duas gerações, quando os manos Amaro não achariam facilmente, como agora, álibi no providencial anonimato gerado pela azáfama das vidas para justificar as suas incompatibilidades) nos aproxima, talvez nos afaste a apreciação que fazemos do carácter formal e exterior das manifestações religiosas: para ti, um possível indício de farisaísmo; para mim, talvez, sobretudo, as reminiscência de uma alma comum que não se quer apagada ou, o que dá no mesmo, a demanda de uma formalidade sem a qual qualquer conteúdo se esvai na implacável voracidade do tempo. Parafraseando o velho Kant sobre as fontes do conhecimento, diria que formas de religiosidade sem conteúdos (compromissos concretos) são vazias mas que estes sem o invólucro de uma ritualidade que sugira intemporalidade são cegos.
A título de exemplo, permite que te descreva um método eficaz para esvaziar uma igreja. Claro que se trata de uma apreciação meramente empírica, como o serão todos os recursos de quem não se encontra pastoralmente habilitado nem é cientificamente capaz e, portanto, dificilmente resistirá a um adequado exame crítico. Ainda assim, considera-o como possibilidade (… combinando-o com as tais razões acessíveis já ao simples iniciado nas ciências sociais). Ponha-se à frente de uma comunidade paroquial que enchia uma igreja três vezes em cada domingo um pastor que mobilize o melhor das suas energias (feitas de “garra evangélica” no verbo e chicote anti-vendilhão na mão) para em cada homilia desancar na “falta de autenticidade” dos baptizados que têm a coragem de transpor as portas para “assistir” aos serviços litúrgicos, o descaramento suficiente para inscrever os seus rebentos na catequese e a distinta lata de nos dias festivos (primeira comunhão, por exemplo) providenciar, se não um banquete, pelo menos um rancho melhorado após a cerimónia para que aprimoraram os meninos com laçarote e as meninas com vestido branco e florzinha no cabelo. Para ficarem melhor na foto? Por certo. Ou, quem sabe, porque essa exterioridade, essa formalidade, ainda que secundária, é o catalisador de uma pertença que se ancora numa memória de ritualidade festiva, grata e bela – não necessariamente na manifestação desse tremens que justificaria, segundo Rudolf Otto, a persistência de uma consciência do sagrado. A prazo esse mesmo pastor recomeça as suas invectivas - combate em que o adversário é agora, porém, a parca “audiência”. Mas nem ele percebe que o seu continuado esforço de apartar a elite de dignas ovelhas dos intrusos cabritos foi eficaz: estes, finalmente conscientes da sua indignidade, como os juízes do povo incapazes de atirar a primeira pedra, houveram por bem debandar de um meio onde mais sensato – e evangélico – seria serem, mais que ninguém, acolhidos, quais indigentes das ruas no banquete para outros preparado.

Aquele abraço.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Heterodoxias 2 (II)


Com um abraço p/ o Nicolau !

1.Eu conheci um sr. chamado José Amaro (meu avô e padrinho). Ele só tinha um irmão chamado António. O meu avô era uma pessoa religiosa (missa dominical, quando havia no Violeiro, confissão e comunhão anuais (pela Páscoa da Ressurreição), pagava a côngrua e tocava as avé-marias, pela manhã e à tardinha... etc...). Durante 40 anos o meu avô e o irmão não se falaram, devido a desavenças que não importa relatar. Quando se cruzavam, mudos e surdos que não eram, cada um olhava para um lado diferente de modo a que se não cruzassem os olhares... Aquilo impressionava-me!

2.Estou de acordo contigo quanto à afirmação, pura e simples, de que se terá verificado uma “descristianização” nas últimas décadas ser problemática. Mas se olharmos esta mesma sociedade pelos números (aqui na Europa) teremos de reconhecer que efectivamente ela aconteceu. Claro que não vou elencar os factores que levaram a isso (deixo a tarefa para os caloiros de sociologia), mas se passarmos aos porquês talvez possamos, sem aplicação linear, apelar para alguns critérios evangélicos, que são verdadeiramente exigentes e dos quais prescindimos facilmente, sejam eles vividos mais individual ou mais comunita-riamente. Aliás, para mim os critérios evangélicos são sempre comunitários, porque exigem sempre um outro.

3. É verdade que se desvalorizaram e abandonaram muitas coisas ao longo das últimas décadas (sobretudo após o Vaticano II): gestos (sinal da cruz, genuflexão dupla em frente do SS.mo, água benta, comunhão na boca, liturgia em latim, véus sobre a cabeça, uso da casula, benção do ss.mo, incenso, etc...), palavras (orações e devoções particulares a todos os santos e santas...). Sobre as práticas litúrgicas mais vernáculas não penso que tenham sido elas a ter um efeito perverso de “desagradar e potenciar a individualidade”. Penso que até terá contecido o contrário... Aceito, para os que ainda anseiam por um deus = mysterium tremens, que lhes faça falta uma linguagem mais condizente, como por exemplo o latim.. Mas, para satisfação de alguns e tristeza de outros, estamos em fase de “recuperação”, pois o actual papa não só já o autorizou aos lefebvrianos, como deu instruções às dioceses para que, onde fosse solicitado, por um grupo de fiéis, se rezassem missas em latim. Outro gesto diz respeito à comunhão na boca que está em fase de recuperação (pelo menos em termos de proposta romana e de prática papal).

4. Quanto à identidade partilhada acho-a fundamental: mas não se pode ficar por aí, pelo menos a cristã. É preciso que tenha consequências, significado, faça sentido. Não me entusiasmam as multidões de Fátima (embora tenha por elas um enorme respeito), as Jornadas Mundiais da Juventude, as Bençãos dos Caloiros etc... São, na sua maioria, mero folclore... que não deixa nada a não ser umas fotos ou uns vídeos. Se não levam a um compromisso e a gestos concretos não passam de manifestações farisaicas para família ver e clero rejubilar. É preciso que ajudem o t´Zé Amaro a reconciliar-se com o irmão António; o Joaquim a perdoar ao Manuel; o Francisco a renunciar a um dos empregos em favor do Rafael, que está desempregado; e a Amélia a deixar de trabalhar em favor de outrém, porque já tem a sua reforma que lhe dá perfeitamente para viver, e levar o João a compreender que deve pagar os impostos, pois não o fazendo está a prejudicar a comunidade e a “ofender” o bem comum. Jj-a

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Heterodoxias 2

Diz o meu amigo Nicolau Marques comentando o “Heterodoxias” que “o abandono de alguma ritualidade (...) empobreceu a prática e a identidade religiosas”. Não sei se ele se refere ao número de praticantes se se refere à prática (celebrações, oração...) em si mesma, bem como “a identidade religiosa”. Independentemente do alcance das suas palavras parece-me que a questão da prática tem sido o grande problema (católicos praticantes, católicos não-praticantes) da Igreja, devido ao facto de ela se ter contentado, de há séculos a esta parte, com uma prática desencarnada da vida e ter descurado a formação dos baptizados e a exigência que daí lhes advém de viverem um compromisso efectivo com o mundo. Com este mundo que lhes toca povoar, viver e construir.
Estou de acordo que uma visão muito intimista, individualista – tipo: eu cá tenho a minha religião, e o meu deus com o qual falo directamente – é uma afronta à proposta do HBA. Mas também não adianta nada cultivar um formalismo excessivo colocando nele a salvação, que depois não acontece e se revela completamente estéril. Seguir o mestre tem de dar frutos... (pelos frutos os conhecereis) e não adianta andarmos uma vida inteira a coleccionar genuflexões e vénias, que depois desembocam numa atitude farisaica e nada cristã, quando surge o teste da vida real, através da exigência do amor, do perdão, da misericórdia, da compaixão e da cordialidade.
Quanto à “dispersão das ovelhas”, todos sabemos que foi o que sempre aconteceu. E quem já foi pastor (como eu) sabe que há sempre alguma que se tresmalha (fica para trás, vai muito à frente, guina para a esquerda... para longe das outras). É dessa que o HBA vai à procura, pois ele disse que deixava as 99 que já estavam juntas, boas cumpridoras, preparadas para o ritual, e ía à procura da outra. Esta atitude é mesmo de “tontos”... E daí advém outra questão: seríamos nós capazes de fazer o mesmo? De arriscar perder 99 para salvar uma? Tenho a certeza que o HBA não devia ser muito nas contas. Ou tinha outra tabuada!
Sobre a “identidade religiosa” só temos uma: o amor aos irmãos, que é o mesmo que o amor a Deus. A das certidões, diplomas e símbolos já foi. Agora é a vida, enquanto tradução de tudo aquilo em que acreditamos, que é a nossa identidade!
Um abraço ao Nicolau com um obrigado pelo comentário. Aqui pretendi somente precisar um pouco mais o que penso sobre estas questões. Espero não chatear muito... Jj-a

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Heterodoxias

1.Seguramente que ser cristão não é encavalitar pai-nossos e avé-marias uns nos outros, com uns intervalos de glórias-ao-pai. E, embora andássemos muitos anos atrelados a isso (e não é que daí tenha vindo grande mal ao mundo, mas o problema é que também não veio grande bem), pois achávamos que isso é que era ser cristão, hoje, tal não acontece porque nos tornámos orgulhosamente ateus uns; vaidosamente agnósticos outros e preguiçosamente cristãos o restante povo.
2.Então o que é isso de ser cristão? Nada complicado, nada difícil de decorar, nada esotérico... é ter o homem dos braços abertos como ponto de referência na vida: olhar para ele e “ir” com ele. Não é imitá-lo porque tal não é possível, nem desejável. Quando caminhamos cada um “monta” as suas pernas e faz o caminho como pode e sabe, diria de maneira única...
 Ele pediu: “sigam-me! Se quiserem”... E o que é seguir senão olhar e ver alguém que vai à frente? Por vezes somos uns engraminhados e pensamos que as coisas simples não têm valor e que quanto mais complicado melhor. Porém, o simples é que é extremamente difícil de atingir. Aquele homem de Nazaré, o dos braços abertos, apontou um caminho (como proposta e não como uma imposição) e depois disse que quem quisesse ir com ele que o seguisse...  “é por aqui”, disse; “não vai ser fácil”, avisou; “se calhar até perigoso”, alertou; “a decisão é de cada um”, concluiu!
3. E se, em vez de nos lamentarmos tanto, reflectíssemos mais sobre as nossas idiossincrasiazinhas? Sobre as nossas incoerências, invejas, vinganças, ódios, rancores... e outros “nobres” sentimentos de estimação?, se calhar éramos mais cautos no julgar e no dizer e mais serenos e solidários no agir e no condenar. E até mais felizes, porventura. Jj-a

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Padre Manuel Pedrosa Soares e a minha vida.


José Antunes Cerdeira
Salgueiro (Três Povos) – Fundão. Ano de 1972. Sala de aulas do 4º ano.




O Padre Lúcio visita a minha escola primária e pergunta se alguém quer ir para o seminário do Tortosendo. Não tinha falado com ninguém acerca do assunto; levantei o braço e respondi afirmativamente.
Alguns meses mais tarde, finais de 1972, iniciei uma grande aventura: ingressei no SVD - Tortosendo.
Tímido e introvertido, muito ligado à família, rapidamente me tornei um alvo fácil para os “valentões”. Não jogava bem “à bola” e nunca fui suficientemente corajoso, fisicamente, para andar à porrada. O facto de ser, relativamente, bom estudante, em nada abonava a meu favor; penso, até, que isso provocava a ira dos “valentões” e era mais um motivo para ser massacrado. Hoje, dir-se-ia que fui vítima de “buling”.
Numa das deslocações que uma equipa de psicólogos fazia anualmente ao seminário, a uma pergunta sobre se já tinha pensado, alguma vez, em suicídio, respondi afirmativamente. Os resultados dos testes psicológicos indicavam uma personalidade apática e amorfa. Sentia-me indefeso, sozinho, no fundo do poço.
Algum tempo depois, provavelmente ao ter acesso aos testes, o Padre Soares conversou comigo. Pelo menos desde então, senti sempre a sua presença, atenta e vigilante, protectora e incentivadora: “Força, vais conseguir que eles te respeitem”.
Em surdina, ou através de simples olhares, a mensagem era sempre a mesma: “Força, tu consegues”.
Quando as férias terminavam e tinha de regressar ao seminário, chorava copiosamente. Ao longe, quando começava a avistar o enorme casarão (seminário), o meu coração apertava. Sabia o que me esperava. Nunca contei em casa o que passava e nunca disse aos meus pais que não queria andar no seminário.
Assim foram os meus primeiros anos de seminário.
Pouco a pouco, a realidade foi mudando …. Os resultados dos testes psicológicos já apontavam para um outro tipo de personalidade, e até passei a ser convocado para a selecção de futebol do seminário.
Desses tempos, para além da omnipresença do Padre Soares, recordo, com saudade, para além de mais dois ou três, o meu grande amigo: António Baptista (S. Jorge da Beira). Obrigado, Baptista (também pela coragem de teres aceite ser amigo de alguém que era o último do ranking da turma).
Passados cinco anos no Tortosendo, rumo a Fátima. O meu único prefeito – Padre Soares – acompanha-nos.
Adorei os dois anos passados no seminário de Fátima, na companhia do Franco, Lúcio, Zé Maria, Nicolau, Albino, Zé Manel, “Pisco”, Zé Prazeres, Tó-Rui, Victor Ramos, ….
Estava convicto de que a minha vocação era ser sacerdote.
No segundo trimestre do antigo 7º ano (actual 11º ano), quando questionados sobre a nossa intenção de prosseguir, ou não, a caminhada para o sacerdócio, sem saber bem porquê, a dúvida, sobre qual o caminho a percorrer, começou a assolar-me.
Foram dias muito difíceis. O caminho mais fácil era continuar. Disso não tenho dúvidas. A maior parte dos amigos ia prosseguir e eu fora educado, pelo menos desde os dez anos, para seguir tal caminho. No seminário, sentia-me como peixe na água. Nessa altura, inúmeras vezes, à noite, sozinho, dirigi-me ao Santuário de Fátima. Pedi imenso a Nossa Senhora que me indicasse o caminho.
Mas, o argumento que me assolava era sempre o mesmo: viveste sempre no seminário, a decisão de prosseguires não é uma decisão em total liberdade.
Não conhecia o mundo cá fora. Senti necessidade de vir ver como era. Duvidava, também, que tivesse qualidades suficientes para estar à altura de assumir a responsabilidade de ser sacerdote. Ainda hoje não sei se foram desculpas que arranjei para mim próprio ou se foi falta de coragem. Saí com a convicção de que voltaria.
Na hora da despedida, duas palavras do Padre Soares: “Se quiseres voltar, a porta está aberta. NUNCA DEIXES DE SER QUEM ÉS”.
Estas últimas palavras ainda hoje ressoam no meu quotidiano.
Os primeiros tempos fora do seminário foram muito difíceis. Sentia-me como um peixe fora da água. Sentia-me um ser um pouco diferente dos demais. Sem saber muito bem o que queria, fui tomando decisões (quase sempre solitariamente).
Sempre acreditei que alguém guiava os meus passos.
Prossegui os estudos mais alguns anos.
Inicialmente, mantive-me muito próximo da Igreja. Todavia, à medida que me ia distanciando, senti necessidade de procurar algumas respostas. Não as encontrei e a participação nos ritos religiosos passou a ser menos frequente.
Tenho uma carreira profissional. Entretanto, casei e tenho dois filhos.
A responsabilidade de educar estes, levou-me a uma reaproximação da Igreja. Senti, então, a alegria da redescoberta do caminho. O regresso às origens fazia todo o sentido. Hoje, sou dirigente do Corpo Nacional de Escutas – Agrupamento do Fundão (José Amaro, o lema do Agrupamento para o corrente ano escutista é: “Deus, Pão e Ternura”. Se tivermos de pagar direitos de autor, pagamos … não sei é quando).
MUITÍSSIMO DO QUE SOU, DEVO-O AO PADRE SOARES.
Para mim, não é possível falar do seminário sem falar do Padre Soares. O seminário “confunde-se-me” com o Padre Soares.
A seguir à minha mãe, o Padre Soares foi o adulto mais importante para mim, no período compreendido entre os dez e os dezoito anos.
Mais, ainda hoje, passados cerca de trinta anos, o Padre Soares é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Ainda hoje, sinto, de uma forma muito forte e viva, a sua presença.
Durante anos a fio, raros foram os dias em que, quotidianamente, o Padre Soares não me visitou nos meus pensamentos.
Após sair do seminário, durante bastante tempo, receei reencontrá-lo. Tinha medo que tudo tivesse mudado e que algo pudesse manchar as boas recordações, as imagens, as palavras, os sentimentos ….
Mas não. O Padre Soares continua igual a si próprio e eu, seguindo o seu conselho, não me envergonho de ser quem sou. Continuo muito igual ao que era, esforçando-me, cada dia, por tentar ser um pouco melhor.
Obrigado, muito obrigado, Padre Soares.
Para terminar, uma nota final e uma questão para ponderar:
- O seminário não representou um percurso fácil para muitos de nós e é preciso ajudar esses a fazer o reencontro positivo com o passado.
- Na nossa vida damos testemunho de fé e mantemo-nos fiéis às nossas origens e vivências? Ou isso é coisa do passado?
Sinto meu orgulho em dizer que andei no seminário. Cada vez mais, sobretudo quando consigo que o meu testemunho de vida seja condizente com tudo o que o seminário representa, em termos de valores e de caminho de vida. 
Um fraternal abraço para todos os verbitas.