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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Nariz Entupido ou Um Segundo Renascer

Acabo de saber da publicação do livro do nosso companheiro e amigo Amâncio Barbosa! "Nariz Entupido ou Um Segundo Renascer". 
Como havia eu de vos fazer chegar a notícia, sem conhecer o livro e conhecendo apenas  a "peça"?


Mas, há sempre alguém que está no nosso caminho, sem saber, sem nós sabermos, até esse momento! Então prestem atenção:

“Um só comentário: Por favor leiam este livro.
Só alguém com ALMA um dia o escreveria. É espelho da (duma!) vida? É uma visão Universal da sua (!) existência terrena… É sei lá mais o quê – Grande hino de Amor à Vida. Gostei e aconselho.
Deixo esta bela “tirada”:
“Diz-se que estradas rectas e mulheres sem curvas só dão sono. É por isso que estes “percalços” nos vão mantendo vivos e sem o nariz entupido para continuarmos a rabiar.
…Vou reinventar-me e tudo fazer para jamais ter o nariztupido da historieta”.
Escrito em bom Português arcaico e vernáculo (qual acordo ortográfico!!!). Do meu Amigo e nosso Confrade, Amâncio Gonçalves.”

Quem assim o diz é um amigo do nosso amigo (nosso amigo é, diz-se, e nós praticamos!),  Orlando Oliveira.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Capeia raiana

Voltávamos ao Seminário no último dia de setembro e os primeiros dias eram passados a refazer os laços de fraternidade que nos uniam. Mas havia um grupo especialmente desleixado nessa tarefa: os raianos do Sabugal. Enquanto os alunos da Cova da Beira, da Gardunha e do Zêzere mineiro rapidamente entravam em velocidade de cruzeiro, os raianos tinham primeiro uma tarefa muito mais importante: contar uns aos outros como fora a capeia nas suas terras.
Juntavam-se em grupos numerosos e cada um contava os episódios mais extraordinários que tinham vivido ou a que haviam assistido. «Fui a Espanha e ajudei a passar as vacas para este lado, sempre ao lado delas.» ou «Os homens baixaram muito o forcão e a vaca saltou para cima e ficou presa nos paus.»
Nós, os leigos, andávamos em redor do grupo, a ouvir. Algum atirava uma provocação «Tourear com vacas, ah! ah! ah!», mas só lhe dispensavam o olhar de desprezo e dó que se reserva aos pobres ignorantes.
Bem podíamos nós, os de São Vicente, ainda mal refeitos das Festas de Verão, falar-lhes da grandiosidade da procissão do Santo Cristo ou do fogo de artifício, que eles pouco ligariam. Perante tanto fervor, nem tentávamos, receosos de cair no ridículo.
Por isso, quando há meses o médico Sanches Pires (o Zé Manel Patana da Lageosa) apresentou, em Castelo Branco, onde vive, um livro sobre as capeias da sua terra, eu não resisti e fiquei a compreender melhor o entusiasmo dos meus colegas. Soube que já foi apresentado na sua terá natal, que há outros livros sobre as capeias de outras terras raianas e que a capeia é agora património imaterial nacional.
Há dias recebi o Contacto e, num artigo do Zé Amaro, sobre os 50 anos da ordenação do Padre Vaz, lá vem uma foto da capeia como um dos acontecimentos mais marcantes da sua vida. ATÉ O PADRE VAZ, um homem tão acima das simples coisas terrenas! (No artigo, percebi que ele tem, sempre teve, os pés bem assentes na terra.)
Adolescente inquieto com tanto mundo desconhecido, um dia perguntei a um colega raiano o que era afinal a fronteira, o que havia lá a marcá-la. Respondeu-me que nada, o gado pastava dos dois lados e iam às festas uns dos outros. Então percebi que a fronteira era apenas uma linha nos mapas dos livros, uma coisa que só existia na cabeça de quem mandava.


José Teodoro Prata

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A alegria do Evangelho é para todo o povo


«Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo” (Lc 2,10)» 


Papa Francisco, exortação apostólica A Alegria do Evangelho, 23 


excerto e imagem da mensagem de natal do Pe J Antunes, svd

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O sacrifício do burro e da vaca

Maria estava com um olho no menino e outro em José, não fosse ele deixar esturrar o suculento e borbulhante guizado, que a fogueira cozinhava em enorme caldeirão (não havia panelas a pressão), em fogueira a lenha de oliveira velha e pinheiro manso. O petisco, saboroso e bem cheiroso, é o resultado do abatimento da vaca e do burro, que José  Maria tinham encontrado na gruta. José, com a pachorra que se lhe conhece, mexia o caldeirão com uma trabalhadíssima colher de pau (puro artesanato) os restos mortais da vaca e do burro, pois a fome e a miséria eram tantas, naqueles tempos de crise, que os dois pobres nazarenos, em viagem de recenseamento a Jerusalém, não tiveram alternativa senão sacrificar os quadrúpedes de modo a amenizar a época natalícia e a torná-la, pelo menos, um pouco mais agradável ao estômago.
Sabemos que uma jovem mãe precisa de se alimentar bem para que o leite não falte ao crianço, mesmo que ele seja o menino Jesus. Que, aliás, dele bem precisa, pois já lá vão tantos anos desde o seu nascimento, que já era tempo de subir de categoria sócio-antropológica... pelo menos para jovem adulto. Mas não! Não há maneira de isso acontecer... Ou será que tem de acontecer primeiro em nós, porque nós também andamos cá bem para trás?
José sacrificou o burro e a vaca porque estes tempos de crise o obrigaram. Oxalá não apareça algum milionário (dos parvos) a reivindicar a posse das bestas e uma indemnização por roubo e outros prejuízos.
Mas ali não havia, sabemo-lo, alternativa: ou morria o burro e morria a vaca ou morriam os inquilinos “okupas” da gruta . “Okupas”, à espanhola! Claro!
Quanto ao comer carne de burro, para nós Portugália nem é assim tão estranho. Há anos, ali para as bandas de Torres Vedras (Oeste) foram abatidos para alimento - são alimento corporal - umas centenas de burros. Que, depois, foram comercializados em bons talhos da capital (Lisboa) e bem confecionados em amplas cozinhas de hotéis de  vária estrelas. O hotel-gruta de Belém só tinha uma estrela. Já se vê que era para o fracote em “comparança” com os de cinco (que já são muitos).

Quanto às vacas, o abate acontece todas as semanas, mais velhas ou mais novas (as novas chamam-lhes vitelas – um nome bastante feio!) E, embora eu tenha pena delas: nada posso fazer, pois vem logo os fiscais com as leis da procura e da oferta. Já digo, uma péssima invenção do nosso omnipotente e omnipresente mercado. Que raça de senhor tão poderoso e malvado!
Mas deixemos o menininho em paz, pois a carnuça é só para os adultos de denta dura (Maria e José). Ele pequeno ainda só bebe o leite que Maria produz e lhe dá. José está bem, pois as proteinas permitem-lhe conservar a saúde. Aqui há uns anos ele andava um pouco reles (doente), pois faziam-no tão velho que não admira que nesta época do inverno se sentisse um pouco apanhado pela gripe e constipações. Até porque na altura não havia Cêgripe!
Mas vamos deixar a coisa por aqui. Se for preciso vamos lá ao tribunal ser testemunhas abonatórias de José e Maria, que o pequeno ainda não pode ser importunado, pois não tem a idade canónica para assumir responsabilidades.

Com um caricioso e terno abraço nataleco para todos os que ainda são capazes de se deixar encantar por um menino, um casal pobre e dois quadrúpedes.


J.J.AMARO

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Bode Expiatório


Está tudo do avesso. O mundo está ao contrário e, mesmo sem conhecermos as causas profundas, todos temos essa intuição, essa perceção. A evolução moral, como a pessoal, é lenta e tem por vezes recuos significativos. Em termos coletivos estamos num desses períodos seguramente.
É de todos conhecido o facto de nas sociedades primitivas o valor ou a importância residir no coletivo. Era o grupo que era importante, não o indivíduo, a sobrevivência da tribo ou grupo dependia disso. A pessoa, nesses tempos, não tinha qualquer valor além do grupo ou da comunidade em que estava inserida. Aliás, quando as coisas corriam mal, o grupo para apaziguar a ira das divindades, que naqueles tempos eram tão cruéis quanto os homens, pois que criados à sua imagem e semelhança, não tinham qualquer pudor em sacrificar-lhe um dos seus.
Se recuarem à mitologia grega, que é já uma coisa recente, lembrarão que Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses, tudo aquilo que entre os homens é repreensível e sem decoro: roubo, adultério e enganos recíprocos. E porventura em território mais conhecido (a Bíblia) lembrarão que no tempo da Páscoa os judeus se dirigiam a Jerusalém para no Templo oferecer sacrifícios a Iavé. Uma das cerimónias consistia em largar no deserto um bode para o qual o Sumo-Sacerdote migrara os pecados do povo com a função de ali os expiar: o bode expiatório.
É fácil de ver que os tempos não têm sido fáceis, mas tem havido evolução, e como ensina o filósofo José António Marina: o uso racional da inteligência, que se materializa na procura de evidências partilhadas, intersubjetivas, que se empenha numa corroboração incessante daquilo que pensa, mediante a critica, o debate, a prova, melhorou a nossa convivência, libertando-nos da tirania da força e instaurando a orbe da dignidade humana.
O surgimento da ética como possibilidade que a inteligência tem de quebrar a lógica do mundo, que é a lei da selva, o reforço do direito com a consagração dos direitos de personalidade, do principio da igualdade, que permitiu o surgimento dos regimes democráticos, que assentam no princípio da responsabilidade pessoal e nos levaram a um patamar civilizacional que pensámos indestrutível…todavia e de repente: ai, ai, ai, que isto assim não pode ser…parece que está tudo a ruir!!!
O que nos está a acontecer é um terramoto moral. O capitalismo, com os seus fetiches hedonistas, levou-nos a níveis de consumismo e individualismo insustentáveis, com dinheiro fácil, muito dinheiro, para termos tudo do bom e do melhor. Pensávamos que só assim merecíamos a aceitação do outro. Sacrificámos tantas coisas para ter mais dinheiro. Um emprego não chegava, arranjavam-se dois. Era preciso trocar de carro, uma casa maior, uma outra casa de férias… acabámos por nos vender por um prato de lentilhas, tal como Esaú vendeu a sua primogenitura e, no entanto, vivemos hoje tempos de amargura.
E os políticos que no plano simbólico e institucional representam o bonus pater família coletivo, que deviam garantir a justiça, a equidade e o equilíbrio entraram eles próprios em desvario total. Para manter o poder ou para o alcançar tudo se tornou válido. Sustentam a ação num discurso totalmente esquizofrénico, um discurso de feirantes, a vender ilusões quando na oposição e mal alcançam o poder, um discurso inverso, que sustentam com a alta responsabilidade de estadistas, permitindo-se subverter os mais elementares princípios da confiança e da boa fé.
Como é que um conjunto de cidadãos que se propõem governar um país o leva a uma situação de ruína, por dividas colossais que se vão acumulando ano após ano? Por ação, porque para ganhar eleições gastam rios de dinheiro em obras de fachada, muitas quase inúteis só para pagar favores às grandes empresas que os sustentam. Por omissão, por deixarem a banca em roda livre a criar uma riqueza virtual até onde ela própria achou possível.
Foi a alta finança que com a sua ganância infinita e os Estados com a sua inoperância que causaram este terramoto a que deram o pomposo nome de divida soberana, de que não há responsáveis. Os responsáveis não são os banqueiros que fraudulentamente nos enganaram a todos nem os órgãos do Estado que tinham o dever de os supervisionar e não o fizeram. Os responsáveis somos nós. Todos nós que temos que a pagar, filhos e netos…
Ora, é este o aspeto mais relevante do problema. É que apesar da Constituição, de imensas leis em vigor e de tribunais instalados, o meio encontrado como o mais adequado foi o da subversão do princípio de responsabilidade individual. Sendo de grande melindre incomodar os sábios políticos (que raramente têm dúvidas e nunca se enganam) e os poderosos, ataca-se quem poucos ou nenhuns meios tem de defesa, através da conversão (perversão) da responsabilidade individual em responsabilidade coletiva.
Como já se percebeu, o direito já de pouco nos vale. O país está atulhado de leis. Nunca houve tantas como agora e como é que nos sentimos? Como um bode expiatório, inelutavelmente condenados.
O que é que precisamos? De uma moral e de uma ética forte, em que seja natural o respeito pelo outro. Em que o outro seja olhado não como uma mera possibilidade de nosso enriquecimento material, mas antes como possibilidade do nosso crescimento pessoal e interior. Nós não viemos ao mundo ser ricos ou pobres, nós viemos ao mundo, antes de tudo para ser felizes…e esquecemo-lo tantas vezes.
O homem é um ser cheio de possibilidades, mas tão frágil, inseguro e tão perdido nas suas ambições. Afinal de nos servem a Constituição, os códigos, os contratos se não se houver respeito, se não houver palavra?
Numa situação de desamparo como esta deixo-vos com salmo 22 de David: Não te afastes de mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude. Essa é que é essa…

novembro 2013.

Francisco Barroso

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Pedra Pequena

A apresentação do livro do Luís Cerejo foi um bom momento de amizade e cultura. Juntaram-se os novos amigos aos amigos mais antigos, para falar de um livro sobre a amizade.
Falou-se de livros, da cidade, dos problemas da vida, das alegrias e tristezas que fazem a vida dos homens. E leram-se trechos de Pedra Pequena, uma ideia que nasceu num concerto de Pablo Ibanez, em Almada.

Dias depois, no jantar dos antigos alunos da SVD a viver em Castelo Branco, o autor partilhou-o com mais amigos. E vai continuar…





j teodoro p

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Pedra Pequena

Sexta-feira, 11 de outubro
O nosso colega e amigo Luís Cerejo está de parabéns! Concluiu o seu segundo livro, não de contos, como o anterior, mas um romance feito de muitas histórias. O livro chama-se Pedra Pequena e ele explica no Prefácio:
  
O título “Pedra Pequena” corresponde a uma expressão que existe em variadíssimas Línguas e Culturas e foi-me inspirado por uma canção de Paco Ibanez que explica que uma “Pedra Pequena” é a pedra que não servirá para grande coisa. Talvez possa vir a ser utilizada, eventualmente, num muro vulgar ou numa estrada.


   “Pedra Pequena” nunca servirá para esculpir uma coluna, para portal de uma igreja, pilar de um palácio ou ameia de um castelo.
   “Pedra Pequena” é como a Vida… uma tragédia e uma comédia gregas em simultâneo.
   “Pedra Pequena” não é, afinal, Castelo Branco.
   “Pedra Pequena” somos todos nós.

O Luís Cerejo deu-me a honra de apresentar o seu livro e eu, logo no início, escrevo sobre o nosso passado comum, onde ganhámos o gosto, um vício bom, pelos livros:
   Conhecemo-nos desde o longínquo outono de 1968, quando, ainda miúdos, ingressámos no Seminário do Tortosendo, onde fomos colegas, da mesma turma, durante cinco anos.
   Entre aulas matinais, tardes de estudo, entrecortadas com futeboladas, e orações de manhã à noite, havia um momento de silêncio e leitura livre às 21 horas, imediatamente antes de deitar. Para esse momento, e outros clandestinos nas horas de estudo, fornecíamo-nos na Biblioteca, que ficava logo à direita de quem entrasse naquele enorme casarão.
   Havia um cavaleiro com uma espingarda de três tiros, num cavalo da cor da noite, que voava como o vento sobre as areias do deserto, se o dono lhe assobiasse entre as orelhas. E o Corsário Negro, herói vingador dos irmãos, o Corsário Vermelho e o Corsário Verde, sempre vitorioso contra os governadores das colónias e os navios que sulcavam o mar das Caraíbas. E também o Sandokan… E ainda os índios Apaches, nas pradarias da América do Norte, guiados pelo grande espírito Winnetou que falava ao grande chefe Manitou através da montanha sagrada. Quanta imaginação Emílio Salgari e Karl May semearam nas nossas mentes!
   Mas não foi pelos livros que soubemos daquela outra montanha sagrada, o Monte Sinai, onde Javé falou a Moisés e lhe entregou a Lei das Doze Tábuas. Foi no cinema, às segundas de tarde, projetado no refeitório, arrumado para sala de espetáculos. Ali, no ecrã, nem precisávamos de imaginar, era tudo real. “Os Dez Mandamentos”, “A Bíblia”, filmes de índios, exércitos e cowboys. Um mundo tão grande!
A apresentação do livro realiza-se no dia 11 de outubro, a próxima sexta-feira, pelas 18 horas, no auditório da Biblioteca Municipal de Castelo Branco. É uma edição de autor, como o anterior.
As personagens principais do livro são três amigos que se encontram diariamente e partilham as pequenas alegrias e misérias da vida. Vamos juntar muitos amigos e saborear com o Cerejo a festa da vida!


José Teodoro Prata

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Nome de guerra: JESUS



Os últimos tempos dão-nos muito que pensar. Dou comigo a fazer o balanço daqueles anos em que julgávamos que podíamos construir um futuro novo. E porque tenho a salutar capacidade de me rir de mim próprio, quero partilhar convosco uma saborosa história que se passou comigo, naqueles tempos.
Saído do Seminário em pleno Verão Quente, vinha imbuído da social-democracia que em Portugal tanto se podia chamar PPD como PS. Mas o meu pai dizia que devemos estar sempre do lado do trabalhador e eu não via isso nestes partidos. Andei baralhado, por uns tempos, mas um dia vi na televisão um comício da UDP e decidi-me. Nas nossas Festas de Verão, em finais de setembro, já éramos um grupinho e acabámos por conhecer um casal dos Borregos que tinha vindo de Lisboa saber como era o Portugal profundo dos seus pais. Levaram o nosso contacto e meses depois já eu insultava o grupo de agricultores que, ciosos da propriedade privada, boicotaram uma sessão de esclarecimento sobre a criação de uma cooperativa agrícola em terras do Visconde de Tinalhas, dinamizada por um nosso camarada engenheiro agrónomo. Livrei-me de uma carga de porrada por ser filho de quem era, soube anos depois.
Um dos pontos altos da minha atividade política foi a campanha eleitoral de Otelo à Presidência da República, em 1976, já na fase mais cinzenta da ressaca da revolução. A minha terra teve um dos maiores GDUPs da região. Após as eleições, a polícia andou pelas aldeias a recolher os nomes de todos os apoiantes do Otelo, numa ação à escala nacional. Ter sido integrado nessa lista pidesca é para mim uma grande honra, ainda mais sabendo ao estado a que esses senhores do 25 de Novembro nos trouxeram (e mesmo discordando na altura e agora, de tantas e tantas coisas que a esquerda revolucionária pensava e fez).
No final do ano, retomei os estudos, em Castelo Branco. Fui imediatamente integrado na estrutura local da UDP. Depois contaram-me um segredo: a UDP não era tudo, o tudo era o PCP(R). Fiquei baralhado e ainda mais quando soube que esse partido era clandestino. Porque sim.
O meu batismo fez-se em reunião noturna, numa aldeia dos arredores da cidade. A célula era formada por dois professores, dois estudantes e um pastor. Comigo, ficámos três estudantes. Um partido clandestino exigia um nome clandestino, como é lógico. Perguntaram-me que nome queria adotar e eu fiquei pensativo e respondi: JESUS. Riso geral. O camarada responsável da célula, formado na grande escola da cintura industrial de Lisboa, sabia que não se podia brincar numa reunião e por isso pediu um intervalo. Então todos nos pudemos rir às gargalhadas. “Imaginem a reunião do Comité Central: Camaradas, temos um novo camarada na Região Outubro: JESUS.” Retomámos os trabalhos e foi-me sugerido escolher outro nome, mas bloqueei. Que outro nome melhor para designar alguém que trabalhava em prol dos outros? Foi-me sugerido Paulo, pois São Paulo fora importante nos primórdios da Igreja. Aceitei e penso que fiquei bem servido.
Tive sempre muitas dúvidas, como seja aceitar a ditadura do proletariado, eu que aspirava a uma sociedade genuinamente democrática. Mas conheci a vida dura e solitária dos pastores, a lutas dos professores na formação do seu sindicato, fiz trabalho académico na minha escola e trabalho cultural na minha terra, acompanhei as tentativas das minhas gentes para construir uma vida comunitária melhor, fui a um congresso, participei em manifestações… Um dia pintei um mural diante da casa de uma colega da escola. De manhã ela protestou pela paisagem que eu lhe impusera ao acordar. Eu neguei, mas ela apontou-me para as sandálias, salpicadas de tinta, como um arco-íris.
Depois vieram as divergências internas sobre as alianças à esquerda, problema ainda não resolvido e que é um dos responsáveis pelo estado atual do país, pela inexistência de uma alternativa ao presente liberalismo. E as falhas na democracia interna, no chamado centralismo democrático, bom e eficiente quando é democrático, completamente torcidário se alguém de cima quer desrespeitar os direitos das estruturas inferiores. (Na verdade, o centralismo democrático não é muito diferente do regime de organização interna da Igreja Católica!)
Por isso implodimos totalmente o PCP(R) e parcialmente a UDP. Em jeito de balanço, penso que nem uma gota de água fui no grande mar da nossa revolução. Fiz bons amigos, alguns do maiores até hoje. Mas havia pouca preparação e demasiada generosidade e impulsividade. E muito sectarismo entre todos os que eram diferentes, vício que vinha da clandestinidade do antes 25 de Abril e que continua bem vivo à esquerda, para gáudio da direita, muito mais pragmática e calculista.

Entre os crimes do cónego Melo e seus pares, no Verão Quente de 75, (mataram o meu camarada Pe. Max) e os crimes das FP 25, nos anos oitenta, houve muita gente simples, que fez coisas simples, de um e do outro lado da barricada, na esperança de melhorar a sua vida e a dos outros. E conseguiu, pois nunca os portugueses viveram como nas últimas décadas (e ninguém me queira convencer de que foi um crime, os mais humildes também têm direito à dignidade!). Mas muitos filhos da democracia aproveitaram-na apenas em seu benefício e alguns querem empobrecer-nos a todos, apenas para agradar ao grande capital mundial e daí tirar proveito pessoal. Há cerca de dois, três anos, um dos homens mais ricos dos EUA dizia que se estava a travar uma guerra entre o capital e o trabalho e que o capital estava claramente a vencer. Se ele o disse, quem somos nós para duvidar? Aliás, já estamos a senti-lo na pele.

domingo, 19 de maio de 2013

o tempo é...

Uns, poucos, ainda puxam puxam. Ainda que poucos, de tanto puxar com os movimentos por coordenar, mais que puxar, é ao próprio corpo que estão a rasgar. Saem-me estas palavras para descrever o momento da vida associativa dos antigos alunos do verbo divino. Caracterizo-o como o movimento dos sem tempo. O relógio parado não cede ao des-equilíbrio, nem ao balanço da vida. Imóvel, permanece ano após ano, num repetir que não o faz renascer de uma letargia consentida onde mal se tem tempo para o decalque. Coragem?... é ir e carregar com o fardo da obrigação de acordar o querubim enfadado, que não rejubila com a graça de um tempo novo e real e reinventado.

É mais do que o tempo para assumir que a aavd está bem, é legal e tem estatutos mais do que suficientes e exigentes para viver por muitos e longos anos, no papel. A aavd está viva e pronta para nos responder a qualquer momento. Assim ousemos questioná-la com tempo, com o nosso tempo individual. Se não temos tempo, para que ousamos questioná-la ano após ano, tentando tirar-lhe a vida de um papel, a vida que só nós lhe podemos devolver com o nosso tempo?

Tempo é igual a interesse, interesse é igual a entusiasmo, entusiasmo é igual a alegria, alegria é igual a partilha, partilha é igual a solidariedade e (...). O que falta na aavd é o meu, o teu, o nosso tempo, o tempo que completa o ciclo da vida, sem interrupções e sem "romagens". A dinâmica da aavd tornou-se, em nome da memória dos seus fundadores e grandes mentores, numa romagem com, cada vez, menos actores, transformando-se num cenário deprimente de espectadores indiferentes.

A cada evento se torna mais evidente o penoso o arrastar de um lista com a meia dúzia de inscritos do costume que, com a aproximação das datas, se transforma numa pedinchice lamentável de mensagens, recados e telefonemas, numa quase suplica pela presença dos seus pseudomembros. Um triste cenário de que venho sendo testemunha e que, em nome da dignidade, não quero esconder mais, basta! 

Em termos de comunicação os ritmos são insuportáveis, entre a realização dos eventos e a sua notícia, sendo optimista, são, no mínimo, três meses de grande expectativa pela chegada do correio. Nem os leitores imaginam as dores de cada "parto", o sangue, o suor e as lágrimas dos parteiros. Mas finalmente chega o jornal, para nos preencher a alma de não tempo. O nosso querido lux mundi é uma sombra que corre penosamente atrás do tempo e que nos persegue, sem nunca nos alcançar. Em nome de uma resposta de duvidosa eficácia, mais uma vez, se vai perder o tempo a discutir uma coisa para a qual (já) não há (mais) tempo. O argumento que mantém a lógica do papel por via dos companheiros mais velhos e do registo que fica para os vindouros deixa-me embuchado! A nossa passagem pela comunidade do verbo divino trouxe-nos uma particular visão do mundo e das suas imensas possibilidades em termos de pensamento e de vivências. Recuso-me a admitir que os que tiveram um percurso semelhante ao meu se sintam incapazes do que quer que seja. O desafio é a marca transversal das várias gerações verbitas que se traduz na diversidade de formas de estar e de ser e no caminho que cada um escolheu. O desafio das novas tecnologias é uma obrigação e ninguém vive debaixo de uma pedra! Como movimento associativo é um dever, promover social e culturalmente os seus sócios. O registo que nos deve perseguir é o de inscrever no futuro a nosso marca, para manter actualizados os nossos desejos e para satisfazer, a tempo, a nossa curiosidade. É inevitável, e mesmo os mais resistentes às novas tecnologias o vão reconhecer.

O tempo é o sangue da vida, o tempo é o teu e é o meu. Nenhum de nós é tão pobre ou tão soberbo para recusar uma dádiva do seu sangue a um corpo que é comum e exige a tua e a minha gota. Mas sejamos práticos e realistas!

sábado, 4 de maio de 2013

A Irrealidade


Francisco Barroso
Maio 2013

O que parecia impossível aconteceu, mas é que aconteceu mesmo. A realidade dos últimos anos virou a minha vida e talvez a de alguns de vós também, de pernas para o ar. Para ser mais rigoroso, não foi a realidade, foram antes os sonhos que construí com a realidade anterior à destes tempos de agonia.

Uma vida tão bonita que eu tinha (e tenho), mas os sonhos, esses, desvaneceram-se. Converteram-se em pesadelo.

Aos 58, mais coisa menos coisa, reforma correspondente ao salário. Filhos criados, a construir o futuro deles. Uns bons anos em perspectiva para viver aquilo que os anglo-saxónicos designam de 2.ª life. Plantar umas árvores na minha Gardunha, visitar países onde não tive ainda possibilidade de ir, agarrar a vida com as mãos e fazer dela o que me desse na real gana.

A verdade é que a reforma está cada vez mais longe e o seu valor perspectiva-se cada vez menor. O salário, cada vez mais baixo. O trabalho cada vez mais: E o pior: os filhos sem futuro. Se isto não é um pesadelo é o quê?

Ontem ouvi o Passos Coelho e o Seguro. Deprimi. No dia 1 de Maio ouvi o Arménio Carlos e não entendi. Incapacidades minhas, admito. Mas eles também se mostram incapazes de aceitar a realidade. Refugiam-se num sonho, que é o deles, de onde se recusam a sair. O discurso do Arménio estava bem construído, mas ignora um aspecto da realidade por demais conhecido: o país está falido. O Passos e o Gaspar, cretinos do mais alto calibre, discursam como se a governação fosse um mero exercício de contabilidade e não houvesse pessoas reais pelo meio.

A minha Cristina anda arrasada. Já era para se ter reformado o ano passado. Vai lá vai. Os educandos cada vez mais difíceis, cada vez menos atentos, cada vez menos respeitadores. São o reflexo perfeito da modernidade líquida, um tempo de mudanças e movimentos constantes, onde nada solidifica, tudo é instável, fragmentado e disperso, determinado pelo curto prazo e pela incerteza permanente, como a define Zygmunt Bauman, um dos grandes pensadores do nosso tempo.

Depois, aqui para nós que ninguém nos ouve, eu penso que ela, aliás como a maioria das professoras, deve ter uma paixão platónica pelo Ministro da Educação. É que chega a casa depois de um dia de trabalho e antes do jantar e depois do jantar ainda se agarra ao computador, a preencher fichas de alunos, a fazer relatórios, a fazer avaliações. Chega a trabalhar 10, 12 horas por dia em certas alturas e acho que há muitas assim. Há algum tempo, comentei isto com o Zé Teodoro e diz-me que a Idalina (a mulher dele) é igualzinha.

Acho que é por estas e por outras que agora falam de aumentar a semana de trabalho para as 40 horas. É que eles não são burros são é velhacos. Sabem perfeitamente que a maioria dos trabalhadores são de grande dedicação e profissionalismo, trabalham muito para além do que eles merecem, mas fazem-no pelo sentimento do dever. Fazem-no apesar da redução dos salários e da afronta permanente de que são alvo.

Completamente diferente deles e dos amigos que nomeiam para o desempenho de altos cargos. Veja-se o caso da gestão do Metro do Porto. Da Carris. Da Refer. Do BPN. O problema de Portugal, não é dos que servem o país, nas empresas ou no Estado, é antes dos que se servem do país e coberto de um quadro legal que só funciona numa direcção, apesar das leis deverem ser de aplicação geral e abstracta, nunca são responsabilizados pelo mal que lhe causam.

Mas já me estava a perder. Para além disto, a pobre da Cristina tem ainda de cuidar da mãe. Já incapaz de fazer coisas tão simples como tomar um simples duche. Imaginem o que será dar banho a uma versão menor do Colosso de Rodes (já há cerca de 20 anos o cardiologista Fernando Pádua lhe assegurou que o problema principal dela eram duas arrobas a mais). Ele é frente, ele é verso, é cabeça, é pernas, uma verdadeira estafa.

Confrange-se-me o coração de a ver assim. O trabalho, a mãe, os filhos, ela e eu, acrescendo a tudo isto que a minha mãe aos 90 anos ainda se recusa a ver-me como um simples pecador e me vê como um santo… e o esforço que isso me exige para não a desiludir.

Então, no jardim das oliveiras em que se tornou ultimamente a minha vida, tal como Cristo, tive uma revelação: o cálice deve ser bebido até à última gota. E percebendo que fui criado à imagem e semelhança de Deus, e que eu próprio sou um fragmento de Deus, como uma gota de água é um fragmento do oceano devo fazer meu, o seu exemplo: servir.

Se Ele na última ceia lavou os pés aos apóstolos, por que raio não posso eu sair da minha zona de conforto, do meu egoísmo, para tornar a vida dos outros mais tranquila e mais feliz?

Na verdade, o sacrifico só é doloroso antes de compreender esta realidade. Todos os homens venerados. Aqueles que mais admiramos, transmutaram o serviço aos outros de sacrifício, no prazer do altruísmo.

Estou quase lá ou não estou? E sinto-me melhor…

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Obrigado, Daniel


José Teodoro Prata

Acabo de ler o teu livro sobre a vida dos mineiros, no couto da Panasqueira. O Chico emprestou-mo. É já uma relíquia histórica (edição de 1978), mas no ano passado assisti a uma peça de teatro que parecia mesmo baseada nele. O Fernando Paulouro é que te pode informar se sim ou não.
Gostei especialmente do capítulo em que apresentas os testemunhos dos mineiros, na primeira pessoa. É um falar rude, mas quantas palavras dos eruditos consegue o povo resumir numa frase tosca de meia dúzia de palavras. São expressões de uma força incrível!
«E aqueles engenheiros e aqueles bandidos: era como se agarrassem um rato pelo rabo, acenando com ele aos gatos. Vinha uma malta de gatos, cheios de fome. Todos queriam chegar ao rato. Era brincadeira pagada, com o povo, ao engano.»
O meu pai também por lá andou, mas poucos meses e trabalhava no exterior. Na minha casa contava-se esta história: um homem do Casal dos Ramos (São Vicente da Beira) morreu num acidente, dentro da mina. A viúva, com os filhos pequeninos, nem dinheiro tinha para lhes matar a fome, quanto mais para pagar o funeral ao Pe. Tomás. Mas ele exigiu-lho, até ao último centavo! Pagou-lho a prestações, a trabalhar ao dia.


Ainda não era nascido ou devia ser muito pequeno, pois não tenho ideia disso, mas lembro-me de morrer um homem com a doença da mina, lá na minha terra. Deixou viúva e um rancho de filhos pequenos. Nesse tempo morriam todos até aos 40 anos, como contas no livro.
«Morria lá muita gente. Eu andei lá nove anos e lembro-me que nesses anos morreram 28 homens só em desastres dentro da Mina. O turno que saía antes de nós rebentava fogo. Quando nós entrávamos para aquelas galerias, que não tinham passagem nenhuma de ar para a Panasqueira, estava lá a poeira toda, ali pousada no chão. A gente começava a mexer no cascalho, aquele pó levantava-se e chegavam a vir trinta e quarenta homens em vagões, como mortos, cá para fora. Ficavam bêbados com o tufo.
E a quem vinha para a rua não lhe contavam o dia. Já viste como era?»
Sabes que me nasceram os dentes das preocupações sociais com uma história da mina? Andava no 5.º ano (1973) e no Seminário líamos o Jornal do Fundão. Em cada semana, um tema sempre repetido: o processo judicial contra o jornal, por ter denunciado a situação de miséria de um antigo mineiro. Um dia, um dos padres explicou-nos a história toda e eu descobri que o mundo era uma casa muito grande, muito maior do que aquele casarão do Tortosendo, mais a minha casita na Tapada.
Obrigado por ajudares a preservar a memória desses tempos tão difíceis.