domingo, 19 de maio de 2013

o tempo é...

Uns, poucos, ainda puxam puxam. Ainda que poucos, de tanto puxar com os movimentos por coordenar, mais que puxar, é ao próprio corpo que estão a rasgar. Saem-me estas palavras para descrever o momento da vida associativa dos antigos alunos do verbo divino. Caracterizo-o como o movimento dos sem tempo. O relógio parado não cede ao des-equilíbrio, nem ao balanço da vida. Imóvel, permanece ano após ano, num repetir que não o faz renascer de uma letargia consentida onde mal se tem tempo para o decalque. Coragem?... é ir e carregar com o fardo da obrigação de acordar o querubim enfadado, que não rejubila com a graça de um tempo novo e real e reinventado.

É mais do que o tempo para assumir que a aavd está bem, é legal e tem estatutos mais do que suficientes e exigentes para viver por muitos e longos anos, no papel. A aavd está viva e pronta para nos responder a qualquer momento. Assim ousemos questioná-la com tempo, com o nosso tempo individual. Se não temos tempo, para que ousamos questioná-la ano após ano, tentando tirar-lhe a vida de um papel, a vida que só nós lhe podemos devolver com o nosso tempo?

Tempo é igual a interesse, interesse é igual a entusiasmo, entusiasmo é igual a alegria, alegria é igual a partilha, partilha é igual a solidariedade e (...). O que falta na aavd é o meu, o teu, o nosso tempo, o tempo que completa o ciclo da vida, sem interrupções e sem "romagens". A dinâmica da aavd tornou-se, em nome da memória dos seus fundadores e grandes mentores, numa romagem com, cada vez, menos actores, transformando-se num cenário deprimente de espectadores indiferentes.

A cada evento se torna mais evidente o penoso o arrastar de um lista com a meia dúzia de inscritos do costume que, com a aproximação das datas, se transforma numa pedinchice lamentável de mensagens, recados e telefonemas, numa quase suplica pela presença dos seus pseudomembros. Um triste cenário de que venho sendo testemunha e que, em nome da dignidade, não quero esconder mais, basta! 

Em termos de comunicação os ritmos são insuportáveis, entre a realização dos eventos e a sua notícia, sendo optimista, são, no mínimo, três meses de grande expectativa pela chegada do correio. Nem os leitores imaginam as dores de cada "parto", o sangue, o suor e as lágrimas dos parteiros. Mas finalmente chega o jornal, para nos preencher a alma de não tempo. O nosso querido lux mundi é uma sombra que corre penosamente atrás do tempo e que nos persegue, sem nunca nos alcançar. Em nome de uma resposta de duvidosa eficácia, mais uma vez, se vai perder o tempo a discutir uma coisa para a qual (já) não há (mais) tempo. O argumento que mantém a lógica do papel por via dos companheiros mais velhos e do registo que fica para os vindouros deixa-me embuchado! A nossa passagem pela comunidade do verbo divino trouxe-nos uma particular visão do mundo e das suas imensas possibilidades em termos de pensamento e de vivências. Recuso-me a admitir que os que tiveram um percurso semelhante ao meu se sintam incapazes do que quer que seja. O desafio é a marca transversal das várias gerações verbitas que se traduz na diversidade de formas de estar e de ser e no caminho que cada um escolheu. O desafio das novas tecnologias é uma obrigação e ninguém vive debaixo de uma pedra! Como movimento associativo é um dever, promover social e culturalmente os seus sócios. O registo que nos deve perseguir é o de inscrever no futuro a nosso marca, para manter actualizados os nossos desejos e para satisfazer, a tempo, a nossa curiosidade. É inevitável, e mesmo os mais resistentes às novas tecnologias o vão reconhecer.

O tempo é o sangue da vida, o tempo é o teu e é o meu. Nenhum de nós é tão pobre ou tão soberbo para recusar uma dádiva do seu sangue a um corpo que é comum e exige a tua e a minha gota. Mas sejamos práticos e realistas!

sábado, 4 de maio de 2013

A Irrealidade


Francisco Barroso
Maio 2013

O que parecia impossível aconteceu, mas é que aconteceu mesmo. A realidade dos últimos anos virou a minha vida e talvez a de alguns de vós também, de pernas para o ar. Para ser mais rigoroso, não foi a realidade, foram antes os sonhos que construí com a realidade anterior à destes tempos de agonia.

Uma vida tão bonita que eu tinha (e tenho), mas os sonhos, esses, desvaneceram-se. Converteram-se em pesadelo.

Aos 58, mais coisa menos coisa, reforma correspondente ao salário. Filhos criados, a construir o futuro deles. Uns bons anos em perspectiva para viver aquilo que os anglo-saxónicos designam de 2.ª life. Plantar umas árvores na minha Gardunha, visitar países onde não tive ainda possibilidade de ir, agarrar a vida com as mãos e fazer dela o que me desse na real gana.

A verdade é que a reforma está cada vez mais longe e o seu valor perspectiva-se cada vez menor. O salário, cada vez mais baixo. O trabalho cada vez mais: E o pior: os filhos sem futuro. Se isto não é um pesadelo é o quê?

Ontem ouvi o Passos Coelho e o Seguro. Deprimi. No dia 1 de Maio ouvi o Arménio Carlos e não entendi. Incapacidades minhas, admito. Mas eles também se mostram incapazes de aceitar a realidade. Refugiam-se num sonho, que é o deles, de onde se recusam a sair. O discurso do Arménio estava bem construído, mas ignora um aspecto da realidade por demais conhecido: o país está falido. O Passos e o Gaspar, cretinos do mais alto calibre, discursam como se a governação fosse um mero exercício de contabilidade e não houvesse pessoas reais pelo meio.

A minha Cristina anda arrasada. Já era para se ter reformado o ano passado. Vai lá vai. Os educandos cada vez mais difíceis, cada vez menos atentos, cada vez menos respeitadores. São o reflexo perfeito da modernidade líquida, um tempo de mudanças e movimentos constantes, onde nada solidifica, tudo é instável, fragmentado e disperso, determinado pelo curto prazo e pela incerteza permanente, como a define Zygmunt Bauman, um dos grandes pensadores do nosso tempo.

Depois, aqui para nós que ninguém nos ouve, eu penso que ela, aliás como a maioria das professoras, deve ter uma paixão platónica pelo Ministro da Educação. É que chega a casa depois de um dia de trabalho e antes do jantar e depois do jantar ainda se agarra ao computador, a preencher fichas de alunos, a fazer relatórios, a fazer avaliações. Chega a trabalhar 10, 12 horas por dia em certas alturas e acho que há muitas assim. Há algum tempo, comentei isto com o Zé Teodoro e diz-me que a Idalina (a mulher dele) é igualzinha.

Acho que é por estas e por outras que agora falam de aumentar a semana de trabalho para as 40 horas. É que eles não são burros são é velhacos. Sabem perfeitamente que a maioria dos trabalhadores são de grande dedicação e profissionalismo, trabalham muito para além do que eles merecem, mas fazem-no pelo sentimento do dever. Fazem-no apesar da redução dos salários e da afronta permanente de que são alvo.

Completamente diferente deles e dos amigos que nomeiam para o desempenho de altos cargos. Veja-se o caso da gestão do Metro do Porto. Da Carris. Da Refer. Do BPN. O problema de Portugal, não é dos que servem o país, nas empresas ou no Estado, é antes dos que se servem do país e coberto de um quadro legal que só funciona numa direcção, apesar das leis deverem ser de aplicação geral e abstracta, nunca são responsabilizados pelo mal que lhe causam.

Mas já me estava a perder. Para além disto, a pobre da Cristina tem ainda de cuidar da mãe. Já incapaz de fazer coisas tão simples como tomar um simples duche. Imaginem o que será dar banho a uma versão menor do Colosso de Rodes (já há cerca de 20 anos o cardiologista Fernando Pádua lhe assegurou que o problema principal dela eram duas arrobas a mais). Ele é frente, ele é verso, é cabeça, é pernas, uma verdadeira estafa.

Confrange-se-me o coração de a ver assim. O trabalho, a mãe, os filhos, ela e eu, acrescendo a tudo isto que a minha mãe aos 90 anos ainda se recusa a ver-me como um simples pecador e me vê como um santo… e o esforço que isso me exige para não a desiludir.

Então, no jardim das oliveiras em que se tornou ultimamente a minha vida, tal como Cristo, tive uma revelação: o cálice deve ser bebido até à última gota. E percebendo que fui criado à imagem e semelhança de Deus, e que eu próprio sou um fragmento de Deus, como uma gota de água é um fragmento do oceano devo fazer meu, o seu exemplo: servir.

Se Ele na última ceia lavou os pés aos apóstolos, por que raio não posso eu sair da minha zona de conforto, do meu egoísmo, para tornar a vida dos outros mais tranquila e mais feliz?

Na verdade, o sacrifico só é doloroso antes de compreender esta realidade. Todos os homens venerados. Aqueles que mais admiramos, transmutaram o serviço aos outros de sacrifício, no prazer do altruísmo.

Estou quase lá ou não estou? E sinto-me melhor…

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Obrigado, Daniel


José Teodoro Prata

Acabo de ler o teu livro sobre a vida dos mineiros, no couto da Panasqueira. O Chico emprestou-mo. É já uma relíquia histórica (edição de 1978), mas no ano passado assisti a uma peça de teatro que parecia mesmo baseada nele. O Fernando Paulouro é que te pode informar se sim ou não.
Gostei especialmente do capítulo em que apresentas os testemunhos dos mineiros, na primeira pessoa. É um falar rude, mas quantas palavras dos eruditos consegue o povo resumir numa frase tosca de meia dúzia de palavras. São expressões de uma força incrível!
«E aqueles engenheiros e aqueles bandidos: era como se agarrassem um rato pelo rabo, acenando com ele aos gatos. Vinha uma malta de gatos, cheios de fome. Todos queriam chegar ao rato. Era brincadeira pagada, com o povo, ao engano.»
O meu pai também por lá andou, mas poucos meses e trabalhava no exterior. Na minha casa contava-se esta história: um homem do Casal dos Ramos (São Vicente da Beira) morreu num acidente, dentro da mina. A viúva, com os filhos pequeninos, nem dinheiro tinha para lhes matar a fome, quanto mais para pagar o funeral ao Pe. Tomás. Mas ele exigiu-lho, até ao último centavo! Pagou-lho a prestações, a trabalhar ao dia.


Ainda não era nascido ou devia ser muito pequeno, pois não tenho ideia disso, mas lembro-me de morrer um homem com a doença da mina, lá na minha terra. Deixou viúva e um rancho de filhos pequenos. Nesse tempo morriam todos até aos 40 anos, como contas no livro.
«Morria lá muita gente. Eu andei lá nove anos e lembro-me que nesses anos morreram 28 homens só em desastres dentro da Mina. O turno que saía antes de nós rebentava fogo. Quando nós entrávamos para aquelas galerias, que não tinham passagem nenhuma de ar para a Panasqueira, estava lá a poeira toda, ali pousada no chão. A gente começava a mexer no cascalho, aquele pó levantava-se e chegavam a vir trinta e quarenta homens em vagões, como mortos, cá para fora. Ficavam bêbados com o tufo.
E a quem vinha para a rua não lhe contavam o dia. Já viste como era?»
Sabes que me nasceram os dentes das preocupações sociais com uma história da mina? Andava no 5.º ano (1973) e no Seminário líamos o Jornal do Fundão. Em cada semana, um tema sempre repetido: o processo judicial contra o jornal, por ter denunciado a situação de miséria de um antigo mineiro. Um dia, um dos padres explicou-nos a história toda e eu descobri que o mundo era uma casa muito grande, muito maior do que aquele casarão do Tortosendo, mais a minha casita na Tapada.
Obrigado por ajudares a preservar a memória desses tempos tão difíceis.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Jantar da tertúlia!

Check!
tertuliando
Como combinado e previsto! Não podia ser melhor... como sempre. Ficou decidido, vamos sanear a garoupa no forno por uns bons tempos. Em Maio, está prometido, mudamos de ares! Sugestões?
Então, aquele ambiente animado, sempre igual e sempre diferente teve uma surpresa, contamos com a presença do José Afonso Lourenço, que passou pelo Tortosendo, é natural de Oleiros e foi companheiro de turma do Casimiro Barata. Como vêm, desde o nosso primeiro encontro, que contamos sempre com a presença de um novo companheiro!
Que posso dizer-vos?... O Daniel Reis, desde o coração do barranco algarvio, olhando para as fotos, podia fazer-vos uma crónica desta espécie de tertúlia com o mesmo sentir que qualquer um dos presentes. O Nicolau, lá fez o telefonema que eu não pude atender, porque o momento era de fado falado e solene, dito pelo Zé Freire, como mais ninguém diz!... É isto... uma cumplicidade entre presentes e ausentes que se experimenta desde a primeira hora, sem sacrifício.

Como não podia deixar de ser, destes espíritos inquietos, sai sempre alguma coisa... nem que seja, lenha para nos queimarmos!... vamos ver!...

O Francisco, gosta de umas guitarradas, umas cantigas, de umas fadistices... e lançou a ideia de criar uma tuna!!!!... Só vai quem quer (como a missa, não é obrigatória!). Para começar, uma vez por mês, a partir de Maio. O objetivo é criar um repertório, ensaiar e actuar e em modo amador e consistente. A ver no que dá!

nota: lembro que esta ideia peregrina do 'sabor da beira' também saiu da mente inquieta (no sentido dinâmico do termo) do Francisco Barroso.
Se ligarmos 1 + 1, é capaz de dar 2!... vamos ver!



Vivam!
Depois dos textos eloquentes do Francisco e do José Teodoro, nada como uma boa tertúlia para os digerir, em conjunto, no meio de uns abraços, de umas garfadas e de uns bagaços,
A boa conversa, a boa mesa e a amizade andam de mãos dadas, vão bem em conjunto e temos a obrigação de cultivar estes requintes. Por aqui, é isso que fazemos, marcamos o ritmo do tempo, com o sabor destes momentos. 

O final do mês de Março está a apresentar-se com algumas complicações festivas que não recomendam a manutenção do nosso jantar na data prevista (última sexta de Março). O mês de Abril dá promessas de  uma primavera mais florida e com melhor disposição. Aproveitando esta predição, fazemos o nosso jantar na primeira sexta de Abril, o dia quinto!

Local do encontro na Valenciana, a partir das 19:30H. Como chegar?... Clica aqui!)


Ainda não somos todos, mas já mexe! Ver aqui os participantes:
https://www.facebook.com/events/356443634466293/

Vão marcar presença:


  • António Casimiro Barata
  • António Monsanto Registo
  • Artur Santos
  • Eduardo Rego
  • Fernando Carvalho
  • Francisco Barroso
  • Henrique Nunes
  • José Afonso Lourenço
  • José Delgado
  • José V Freire
  • Luis Garcia
  • Messias Gomes
  • Ricardo Figueira
  • Vítor Baptista
  • Vitor Gaspar

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Dos homens sem coração


José Teodoro Prata

Escrever sobre os homens sem coração foi o desafio que me lançou, recentemente, o Vítor Batista. Não é terreno em que me sinta à vontade, mas sou suficientemente irresponsável para responder ao repto.
Antes de começar, uma declaração de interesses: sou de esquerda. Apartidário e com sentido crítico quanto baste, mas dessa esquerda inútil que entregou os portugueses ao neoliberalismo e não tem um projeto alternativo credível para o país.

A promiscuidade Estado-Empresas
            Temos de recuar umas centenas de anos para perceber a coisa. Após a Reconquista, o grande D. Dinis e outros que se lhe seguiram fizeram deste território o berço de um povo que em 1383-85 teve a força de dizer não e colocou um bastardo no poder, por ser isso que lhe convinha. E nas décadas seguintes aventurou-se nas descobertas, em feitos maiores que as atuais viagens espaciais. Havíamos atingido a maturidade.
            Mas D. João II reservou para si o rico comércio da Guiné e o sucessor D. Manuel considerou que não havia gente capaz de negociar na Índia e ficou com o bolo inteiro. Toda a gente trabalhava para o rei, até Luís de Camões, escrivão na feitoria de Macau. Mas o Oriente era longe e a missão arriscada. Por isso todos pediam um cargo ao rei, para depois, no terreno, o roubarem quanto pudessem. E foi esta a origem do chico-espertismo e da corrupção generalizada. Se a isto juntarmos a fuga dos comerciantes cristãos-novos, perseguidos pela Igreja, temos as razões da inexistência de uma classe empresarial forte e autónoma do poder político.
             De então até hoje, foi um contínuo calvário. Mesmo quando Portugal voltou a ter um projeto económico digno, era a mão de Pombal que tudo dava e tudo tirava. O liberalismo nada alterou, até porque a base da riqueza nacional continuou a ser o ganho fácil obtido nas colónias sob a proteção armada do Estado. Salazar foi um digno representante dessa economia, um pacóvio que em São Bento criava perus para cravar os ministros, por alturas do Natal, e entesourava o ouro no Banco de Portugal, enquanto os portugueses partiam, aos 100 mil por ano, como agora. 
            A democracia trouxe-nos a reconfiguração da economia, com os portugueses a substituírem a teta das colónias e pela mama da União Europeia, sem perceberem que esta não era de graça, como a outra.
            E os novos tempos trouxeram políticos novos, alguns de qualidade, porque forjados nas dificuldades, depois uns chico-espertos inúteis, filhos de todas as facilidades que a mãe democracia lhes proporcionou. Como bons herdeiros da secular aliança Estado-empresas, tratam de se encher, metendo diretamente as mãos na massa ou fazendo-se pagar por transferências para si ou para os seus partidos. Consta que sem isso não há negócio ou obra que seja autorizada em Portugal. Tudo à cobrança do contribuinte. E que dizer do cancro do BPN, um complô de antigos políticos, para se apoderarem do dinheiro dos seus clientes?

Em modo Relvas
            No início desta crise, um nobel da economia dos Estados Unidos protestava por a bolsa de Wall Street e as agências de rating estarem entregues a grupos de jovens encharcados em álcool e drogas, antigos alunos brilhantes, mas com um enorme desprezo pelos milhões de pessoas que arruinavam com os seus jogos financeiros. Vítor Gaspar é o nosso geniozinho caseiro, mas, como disse a CIP, na altura da TSU, nem para gerir uma empresa ele presta, pois quem sabe apenas uma coisa, não sabe nada! (A minha escola, muitas escolas portugueses, já há muito que estão organizadas para produzir estes monstrinhos: a receita é colocar os alunos apoiados pelo SASE e pela Educação Especial isolados numa turma, para não atrapalharem o desenvolvimento dos melhores. Se isto não é fascismo, o que é? Pedagogia?)
            O Coelho não enganou ninguém. Durante a campanha eleitoral, nas entrelinhas, ele foi apresentando o seu projeto, que agora se percebe melhor: reduzir o custo do trabalho na produção, em sintonia com o que se está a fazer noutros países da Europa. Isso permitirá ao sistema financeiro apoderar-se de uma fatia ainda maior do bolo. Por outras palavras, empobrecer-nos, através da redução dos salários e do aumento dos impostos. Por isso a TSU, a tentativa de transferir dinheiro dos trabalhadores para os patrões. Ele está-se borrifando para Portugal e até mesmo para o seu partido. Meteu o Franquelim no Governo e só não vai buscar o seu conselheiro Dias Loureiro se não precisar dele! A única coisa que lhe interessa é cumprir a sua parte do plano, assessorado por António Borges, o homem que entre nós representa este projeto financeiro global.
            Viram o sorriso com que Carlos Moedas defendeu a qualidade do estudo elaborado pelo FMI, a pedido e a partir de informações fornecidas pelo Governo? Ele sabia toda a maldade que o projeto contém, mas o sofrimento dos portugueses nem respeito lhe mereceu, mesmo sabendo o que nós só depois descobrimos: o documento foi elaborado com muitos dados falsos. Os fins justificam os meios.
            Depois da queda de Sócrates, a esperança de quase todos, nos diferentes quadrantes, era que os defeitos da anterior governação fossem corrigidos. À cabeça, a promiscuidade Estado-empresas e a arrogância iluminada de quem governa. Mas saiu-nos o Relvas, formado na universidade do chico-espertismo, que viveu de esquemas com o seu parceiro Coelho, para sacar subsídios da UE e se relacionar com países emergentes de quem pudesse tirar vantagens. Por isso não é demitido, embora já tenha afastado todos os que na comunicação social se lhe atravessaram no caminho. Ele e o Coelho têm um caderno de encargos e só podem separar-se quando as empresas do Estado tiverem passado para os privados, se possível aqueles a quem as prometeram. E do bolo ainda fazem parte algumas joias como a TAP, os Correios e as Águas de Portugal. Há que esperar, pois os melhores negócios ainda estão em carteira!

Por uma ética política
            Teoricamente, há duas instituições que ambicionam trazer à política a indispensável ética: a Maçonaria e a Opus Dei.
            Da Maçonaria faziam parte, no século XIX, muitos sacerdotes. Na província, eles foram mesmo algumas das figuras mais marcantes. Mas a Igreja terá proibido a sua pertença a esta organização laica. Se tivessem continuado, talvez a experiência da Primeira Republica não tivesse fracassado. Depois Salazar quase acabou com ela e agora vive dividida entre os que professam ainda uma ética republicana e os que se servem da Maçonaria para traficar influências, ao jeito de uma organização mafiosa.
            Da Opus Dei conheço tão pouco como da anterior. Sei que os fundamentalismos religiosos sempre representaram um enorme perigo para as sociedades. A existência de uma lista de livros proibidos é coisa de mentes perturbadas e lembra-nos o Índex da Inquisição. Para uma Igreja com tantas dificuldades, sempre, em sair do lado dos poderosos, ter a sua elite política, social e económica educada por esta gente é o pior que lhe podia acontecer e a Portugal também.
            Será nesta dificuldade dos portugueses de pensarem a política como um serviço à comunidade, no respeito pelo Homem, que estará a causa da falta de grandes políticos que nos tirem deste atoleiro?