terça-feira, 12 de outubro de 2010

Heterodoxias 2 (II)


Com um abraço p/ o Nicolau !

1.Eu conheci um sr. chamado José Amaro (meu avô e padrinho). Ele só tinha um irmão chamado António. O meu avô era uma pessoa religiosa (missa dominical, quando havia no Violeiro, confissão e comunhão anuais (pela Páscoa da Ressurreição), pagava a côngrua e tocava as avé-marias, pela manhã e à tardinha... etc...). Durante 40 anos o meu avô e o irmão não se falaram, devido a desavenças que não importa relatar. Quando se cruzavam, mudos e surdos que não eram, cada um olhava para um lado diferente de modo a que se não cruzassem os olhares... Aquilo impressionava-me!

2.Estou de acordo contigo quanto à afirmação, pura e simples, de que se terá verificado uma “descristianização” nas últimas décadas ser problemática. Mas se olharmos esta mesma sociedade pelos números (aqui na Europa) teremos de reconhecer que efectivamente ela aconteceu. Claro que não vou elencar os factores que levaram a isso (deixo a tarefa para os caloiros de sociologia), mas se passarmos aos porquês talvez possamos, sem aplicação linear, apelar para alguns critérios evangélicos, que são verdadeiramente exigentes e dos quais prescindimos facilmente, sejam eles vividos mais individual ou mais comunita-riamente. Aliás, para mim os critérios evangélicos são sempre comunitários, porque exigem sempre um outro.

3. É verdade que se desvalorizaram e abandonaram muitas coisas ao longo das últimas décadas (sobretudo após o Vaticano II): gestos (sinal da cruz, genuflexão dupla em frente do SS.mo, água benta, comunhão na boca, liturgia em latim, véus sobre a cabeça, uso da casula, benção do ss.mo, incenso, etc...), palavras (orações e devoções particulares a todos os santos e santas...). Sobre as práticas litúrgicas mais vernáculas não penso que tenham sido elas a ter um efeito perverso de “desagradar e potenciar a individualidade”. Penso que até terá contecido o contrário... Aceito, para os que ainda anseiam por um deus = mysterium tremens, que lhes faça falta uma linguagem mais condizente, como por exemplo o latim.. Mas, para satisfação de alguns e tristeza de outros, estamos em fase de “recuperação”, pois o actual papa não só já o autorizou aos lefebvrianos, como deu instruções às dioceses para que, onde fosse solicitado, por um grupo de fiéis, se rezassem missas em latim. Outro gesto diz respeito à comunhão na boca que está em fase de recuperação (pelo menos em termos de proposta romana e de prática papal).

4. Quanto à identidade partilhada acho-a fundamental: mas não se pode ficar por aí, pelo menos a cristã. É preciso que tenha consequências, significado, faça sentido. Não me entusiasmam as multidões de Fátima (embora tenha por elas um enorme respeito), as Jornadas Mundiais da Juventude, as Bençãos dos Caloiros etc... São, na sua maioria, mero folclore... que não deixa nada a não ser umas fotos ou uns vídeos. Se não levam a um compromisso e a gestos concretos não passam de manifestações farisaicas para família ver e clero rejubilar. É preciso que ajudem o t´Zé Amaro a reconciliar-se com o irmão António; o Joaquim a perdoar ao Manuel; o Francisco a renunciar a um dos empregos em favor do Rafael, que está desempregado; e a Amélia a deixar de trabalhar em favor de outrém, porque já tem a sua reforma que lhe dá perfeitamente para viver, e levar o João a compreender que deve pagar os impostos, pois não o fazendo está a prejudicar a comunidade e a “ofender” o bem comum. Jj-a

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Viagem a Santiago de Compostela - AAVD_norte

Foi um dia animado! Podem ver a reportagem aqui!

E as fotos por aqui!


Lá nos encontraremos, agora, no Tortosendo!

domingo, 10 de outubro de 2010

Heterodoxias 2

Diz o meu amigo Nicolau Marques comentando o “Heterodoxias” que “o abandono de alguma ritualidade (...) empobreceu a prática e a identidade religiosas”. Não sei se ele se refere ao número de praticantes se se refere à prática (celebrações, oração...) em si mesma, bem como “a identidade religiosa”. Independentemente do alcance das suas palavras parece-me que a questão da prática tem sido o grande problema (católicos praticantes, católicos não-praticantes) da Igreja, devido ao facto de ela se ter contentado, de há séculos a esta parte, com uma prática desencarnada da vida e ter descurado a formação dos baptizados e a exigência que daí lhes advém de viverem um compromisso efectivo com o mundo. Com este mundo que lhes toca povoar, viver e construir.
Estou de acordo que uma visão muito intimista, individualista – tipo: eu cá tenho a minha religião, e o meu deus com o qual falo directamente – é uma afronta à proposta do HBA. Mas também não adianta nada cultivar um formalismo excessivo colocando nele a salvação, que depois não acontece e se revela completamente estéril. Seguir o mestre tem de dar frutos... (pelos frutos os conhecereis) e não adianta andarmos uma vida inteira a coleccionar genuflexões e vénias, que depois desembocam numa atitude farisaica e nada cristã, quando surge o teste da vida real, através da exigência do amor, do perdão, da misericórdia, da compaixão e da cordialidade.
Quanto à “dispersão das ovelhas”, todos sabemos que foi o que sempre aconteceu. E quem já foi pastor (como eu) sabe que há sempre alguma que se tresmalha (fica para trás, vai muito à frente, guina para a esquerda... para longe das outras). É dessa que o HBA vai à procura, pois ele disse que deixava as 99 que já estavam juntas, boas cumpridoras, preparadas para o ritual, e ía à procura da outra. Esta atitude é mesmo de “tontos”... E daí advém outra questão: seríamos nós capazes de fazer o mesmo? De arriscar perder 99 para salvar uma? Tenho a certeza que o HBA não devia ser muito nas contas. Ou tinha outra tabuada!
Sobre a “identidade religiosa” só temos uma: o amor aos irmãos, que é o mesmo que o amor a Deus. A das certidões, diplomas e símbolos já foi. Agora é a vida, enquanto tradução de tudo aquilo em que acreditamos, que é a nossa identidade!
Um abraço ao Nicolau com um obrigado pelo comentário. Aqui pretendi somente precisar um pouco mais o que penso sobre estas questões. Espero não chatear muito... Jj-a

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Heterodoxias

1.Seguramente que ser cristão não é encavalitar pai-nossos e avé-marias uns nos outros, com uns intervalos de glórias-ao-pai. E, embora andássemos muitos anos atrelados a isso (e não é que daí tenha vindo grande mal ao mundo, mas o problema é que também não veio grande bem), pois achávamos que isso é que era ser cristão, hoje, tal não acontece porque nos tornámos orgulhosamente ateus uns; vaidosamente agnósticos outros e preguiçosamente cristãos o restante povo.
2.Então o que é isso de ser cristão? Nada complicado, nada difícil de decorar, nada esotérico... é ter o homem dos braços abertos como ponto de referência na vida: olhar para ele e “ir” com ele. Não é imitá-lo porque tal não é possível, nem desejável. Quando caminhamos cada um “monta” as suas pernas e faz o caminho como pode e sabe, diria de maneira única...
 Ele pediu: “sigam-me! Se quiserem”... E o que é seguir senão olhar e ver alguém que vai à frente? Por vezes somos uns engraminhados e pensamos que as coisas simples não têm valor e que quanto mais complicado melhor. Porém, o simples é que é extremamente difícil de atingir. Aquele homem de Nazaré, o dos braços abertos, apontou um caminho (como proposta e não como uma imposição) e depois disse que quem quisesse ir com ele que o seguisse...  “é por aqui”, disse; “não vai ser fácil”, avisou; “se calhar até perigoso”, alertou; “a decisão é de cada um”, concluiu!
3. E se, em vez de nos lamentarmos tanto, reflectíssemos mais sobre as nossas idiossincrasiazinhas? Sobre as nossas incoerências, invejas, vinganças, ódios, rancores... e outros “nobres” sentimentos de estimação?, se calhar éramos mais cautos no julgar e no dizer e mais serenos e solidários no agir e no condenar. E até mais felizes, porventura. Jj-a

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Padre Manuel Pedrosa Soares e a minha vida.


José Antunes Cerdeira
Salgueiro (Três Povos) – Fundão. Ano de 1972. Sala de aulas do 4º ano.




O Padre Lúcio visita a minha escola primária e pergunta se alguém quer ir para o seminário do Tortosendo. Não tinha falado com ninguém acerca do assunto; levantei o braço e respondi afirmativamente.
Alguns meses mais tarde, finais de 1972, iniciei uma grande aventura: ingressei no SVD - Tortosendo.
Tímido e introvertido, muito ligado à família, rapidamente me tornei um alvo fácil para os “valentões”. Não jogava bem “à bola” e nunca fui suficientemente corajoso, fisicamente, para andar à porrada. O facto de ser, relativamente, bom estudante, em nada abonava a meu favor; penso, até, que isso provocava a ira dos “valentões” e era mais um motivo para ser massacrado. Hoje, dir-se-ia que fui vítima de “buling”.
Numa das deslocações que uma equipa de psicólogos fazia anualmente ao seminário, a uma pergunta sobre se já tinha pensado, alguma vez, em suicídio, respondi afirmativamente. Os resultados dos testes psicológicos indicavam uma personalidade apática e amorfa. Sentia-me indefeso, sozinho, no fundo do poço.
Algum tempo depois, provavelmente ao ter acesso aos testes, o Padre Soares conversou comigo. Pelo menos desde então, senti sempre a sua presença, atenta e vigilante, protectora e incentivadora: “Força, vais conseguir que eles te respeitem”.
Em surdina, ou através de simples olhares, a mensagem era sempre a mesma: “Força, tu consegues”.
Quando as férias terminavam e tinha de regressar ao seminário, chorava copiosamente. Ao longe, quando começava a avistar o enorme casarão (seminário), o meu coração apertava. Sabia o que me esperava. Nunca contei em casa o que passava e nunca disse aos meus pais que não queria andar no seminário.
Assim foram os meus primeiros anos de seminário.
Pouco a pouco, a realidade foi mudando …. Os resultados dos testes psicológicos já apontavam para um outro tipo de personalidade, e até passei a ser convocado para a selecção de futebol do seminário.
Desses tempos, para além da omnipresença do Padre Soares, recordo, com saudade, para além de mais dois ou três, o meu grande amigo: António Baptista (S. Jorge da Beira). Obrigado, Baptista (também pela coragem de teres aceite ser amigo de alguém que era o último do ranking da turma).
Passados cinco anos no Tortosendo, rumo a Fátima. O meu único prefeito – Padre Soares – acompanha-nos.
Adorei os dois anos passados no seminário de Fátima, na companhia do Franco, Lúcio, Zé Maria, Nicolau, Albino, Zé Manel, “Pisco”, Zé Prazeres, Tó-Rui, Victor Ramos, ….
Estava convicto de que a minha vocação era ser sacerdote.
No segundo trimestre do antigo 7º ano (actual 11º ano), quando questionados sobre a nossa intenção de prosseguir, ou não, a caminhada para o sacerdócio, sem saber bem porquê, a dúvida, sobre qual o caminho a percorrer, começou a assolar-me.
Foram dias muito difíceis. O caminho mais fácil era continuar. Disso não tenho dúvidas. A maior parte dos amigos ia prosseguir e eu fora educado, pelo menos desde os dez anos, para seguir tal caminho. No seminário, sentia-me como peixe na água. Nessa altura, inúmeras vezes, à noite, sozinho, dirigi-me ao Santuário de Fátima. Pedi imenso a Nossa Senhora que me indicasse o caminho.
Mas, o argumento que me assolava era sempre o mesmo: viveste sempre no seminário, a decisão de prosseguires não é uma decisão em total liberdade.
Não conhecia o mundo cá fora. Senti necessidade de vir ver como era. Duvidava, também, que tivesse qualidades suficientes para estar à altura de assumir a responsabilidade de ser sacerdote. Ainda hoje não sei se foram desculpas que arranjei para mim próprio ou se foi falta de coragem. Saí com a convicção de que voltaria.
Na hora da despedida, duas palavras do Padre Soares: “Se quiseres voltar, a porta está aberta. NUNCA DEIXES DE SER QUEM ÉS”.
Estas últimas palavras ainda hoje ressoam no meu quotidiano.
Os primeiros tempos fora do seminário foram muito difíceis. Sentia-me como um peixe fora da água. Sentia-me um ser um pouco diferente dos demais. Sem saber muito bem o que queria, fui tomando decisões (quase sempre solitariamente).
Sempre acreditei que alguém guiava os meus passos.
Prossegui os estudos mais alguns anos.
Inicialmente, mantive-me muito próximo da Igreja. Todavia, à medida que me ia distanciando, senti necessidade de procurar algumas respostas. Não as encontrei e a participação nos ritos religiosos passou a ser menos frequente.
Tenho uma carreira profissional. Entretanto, casei e tenho dois filhos.
A responsabilidade de educar estes, levou-me a uma reaproximação da Igreja. Senti, então, a alegria da redescoberta do caminho. O regresso às origens fazia todo o sentido. Hoje, sou dirigente do Corpo Nacional de Escutas – Agrupamento do Fundão (José Amaro, o lema do Agrupamento para o corrente ano escutista é: “Deus, Pão e Ternura”. Se tivermos de pagar direitos de autor, pagamos … não sei é quando).
MUITÍSSIMO DO QUE SOU, DEVO-O AO PADRE SOARES.
Para mim, não é possível falar do seminário sem falar do Padre Soares. O seminário “confunde-se-me” com o Padre Soares.
A seguir à minha mãe, o Padre Soares foi o adulto mais importante para mim, no período compreendido entre os dez e os dezoito anos.
Mais, ainda hoje, passados cerca de trinta anos, o Padre Soares é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Ainda hoje, sinto, de uma forma muito forte e viva, a sua presença.
Durante anos a fio, raros foram os dias em que, quotidianamente, o Padre Soares não me visitou nos meus pensamentos.
Após sair do seminário, durante bastante tempo, receei reencontrá-lo. Tinha medo que tudo tivesse mudado e que algo pudesse manchar as boas recordações, as imagens, as palavras, os sentimentos ….
Mas não. O Padre Soares continua igual a si próprio e eu, seguindo o seu conselho, não me envergonho de ser quem sou. Continuo muito igual ao que era, esforçando-me, cada dia, por tentar ser um pouco melhor.
Obrigado, muito obrigado, Padre Soares.
Para terminar, uma nota final e uma questão para ponderar:
- O seminário não representou um percurso fácil para muitos de nós e é preciso ajudar esses a fazer o reencontro positivo com o passado.
- Na nossa vida damos testemunho de fé e mantemo-nos fiéis às nossas origens e vivências? Ou isso é coisa do passado?
Sinto meu orgulho em dizer que andei no seminário. Cada vez mais, sobretudo quando consigo que o meu testemunho de vida seja condizente com tudo o que o seminário representa, em termos de valores e de caminho de vida. 
Um fraternal abraço para todos os verbitas.