terça-feira, 5 de outubro de 2010

Heterodoxias

1.Seguramente que ser cristão não é encavalitar pai-nossos e avé-marias uns nos outros, com uns intervalos de glórias-ao-pai. E, embora andássemos muitos anos atrelados a isso (e não é que daí tenha vindo grande mal ao mundo, mas o problema é que também não veio grande bem), pois achávamos que isso é que era ser cristão, hoje, tal não acontece porque nos tornámos orgulhosamente ateus uns; vaidosamente agnósticos outros e preguiçosamente cristãos o restante povo.
2.Então o que é isso de ser cristão? Nada complicado, nada difícil de decorar, nada esotérico... é ter o homem dos braços abertos como ponto de referência na vida: olhar para ele e “ir” com ele. Não é imitá-lo porque tal não é possível, nem desejável. Quando caminhamos cada um “monta” as suas pernas e faz o caminho como pode e sabe, diria de maneira única...
 Ele pediu: “sigam-me! Se quiserem”... E o que é seguir senão olhar e ver alguém que vai à frente? Por vezes somos uns engraminhados e pensamos que as coisas simples não têm valor e que quanto mais complicado melhor. Porém, o simples é que é extremamente difícil de atingir. Aquele homem de Nazaré, o dos braços abertos, apontou um caminho (como proposta e não como uma imposição) e depois disse que quem quisesse ir com ele que o seguisse...  “é por aqui”, disse; “não vai ser fácil”, avisou; “se calhar até perigoso”, alertou; “a decisão é de cada um”, concluiu!
3. E se, em vez de nos lamentarmos tanto, reflectíssemos mais sobre as nossas idiossincrasiazinhas? Sobre as nossas incoerências, invejas, vinganças, ódios, rancores... e outros “nobres” sentimentos de estimação?, se calhar éramos mais cautos no julgar e no dizer e mais serenos e solidários no agir e no condenar. E até mais felizes, porventura. Jj-a

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Padre Manuel Pedrosa Soares e a minha vida.


José Antunes Cerdeira
Salgueiro (Três Povos) – Fundão. Ano de 1972. Sala de aulas do 4º ano.




O Padre Lúcio visita a minha escola primária e pergunta se alguém quer ir para o seminário do Tortosendo. Não tinha falado com ninguém acerca do assunto; levantei o braço e respondi afirmativamente.
Alguns meses mais tarde, finais de 1972, iniciei uma grande aventura: ingressei no SVD - Tortosendo.
Tímido e introvertido, muito ligado à família, rapidamente me tornei um alvo fácil para os “valentões”. Não jogava bem “à bola” e nunca fui suficientemente corajoso, fisicamente, para andar à porrada. O facto de ser, relativamente, bom estudante, em nada abonava a meu favor; penso, até, que isso provocava a ira dos “valentões” e era mais um motivo para ser massacrado. Hoje, dir-se-ia que fui vítima de “buling”.
Numa das deslocações que uma equipa de psicólogos fazia anualmente ao seminário, a uma pergunta sobre se já tinha pensado, alguma vez, em suicídio, respondi afirmativamente. Os resultados dos testes psicológicos indicavam uma personalidade apática e amorfa. Sentia-me indefeso, sozinho, no fundo do poço.
Algum tempo depois, provavelmente ao ter acesso aos testes, o Padre Soares conversou comigo. Pelo menos desde então, senti sempre a sua presença, atenta e vigilante, protectora e incentivadora: “Força, vais conseguir que eles te respeitem”.
Em surdina, ou através de simples olhares, a mensagem era sempre a mesma: “Força, tu consegues”.
Quando as férias terminavam e tinha de regressar ao seminário, chorava copiosamente. Ao longe, quando começava a avistar o enorme casarão (seminário), o meu coração apertava. Sabia o que me esperava. Nunca contei em casa o que passava e nunca disse aos meus pais que não queria andar no seminário.
Assim foram os meus primeiros anos de seminário.
Pouco a pouco, a realidade foi mudando …. Os resultados dos testes psicológicos já apontavam para um outro tipo de personalidade, e até passei a ser convocado para a selecção de futebol do seminário.
Desses tempos, para além da omnipresença do Padre Soares, recordo, com saudade, para além de mais dois ou três, o meu grande amigo: António Baptista (S. Jorge da Beira). Obrigado, Baptista (também pela coragem de teres aceite ser amigo de alguém que era o último do ranking da turma).
Passados cinco anos no Tortosendo, rumo a Fátima. O meu único prefeito – Padre Soares – acompanha-nos.
Adorei os dois anos passados no seminário de Fátima, na companhia do Franco, Lúcio, Zé Maria, Nicolau, Albino, Zé Manel, “Pisco”, Zé Prazeres, Tó-Rui, Victor Ramos, ….
Estava convicto de que a minha vocação era ser sacerdote.
No segundo trimestre do antigo 7º ano (actual 11º ano), quando questionados sobre a nossa intenção de prosseguir, ou não, a caminhada para o sacerdócio, sem saber bem porquê, a dúvida, sobre qual o caminho a percorrer, começou a assolar-me.
Foram dias muito difíceis. O caminho mais fácil era continuar. Disso não tenho dúvidas. A maior parte dos amigos ia prosseguir e eu fora educado, pelo menos desde os dez anos, para seguir tal caminho. No seminário, sentia-me como peixe na água. Nessa altura, inúmeras vezes, à noite, sozinho, dirigi-me ao Santuário de Fátima. Pedi imenso a Nossa Senhora que me indicasse o caminho.
Mas, o argumento que me assolava era sempre o mesmo: viveste sempre no seminário, a decisão de prosseguires não é uma decisão em total liberdade.
Não conhecia o mundo cá fora. Senti necessidade de vir ver como era. Duvidava, também, que tivesse qualidades suficientes para estar à altura de assumir a responsabilidade de ser sacerdote. Ainda hoje não sei se foram desculpas que arranjei para mim próprio ou se foi falta de coragem. Saí com a convicção de que voltaria.
Na hora da despedida, duas palavras do Padre Soares: “Se quiseres voltar, a porta está aberta. NUNCA DEIXES DE SER QUEM ÉS”.
Estas últimas palavras ainda hoje ressoam no meu quotidiano.
Os primeiros tempos fora do seminário foram muito difíceis. Sentia-me como um peixe fora da água. Sentia-me um ser um pouco diferente dos demais. Sem saber muito bem o que queria, fui tomando decisões (quase sempre solitariamente).
Sempre acreditei que alguém guiava os meus passos.
Prossegui os estudos mais alguns anos.
Inicialmente, mantive-me muito próximo da Igreja. Todavia, à medida que me ia distanciando, senti necessidade de procurar algumas respostas. Não as encontrei e a participação nos ritos religiosos passou a ser menos frequente.
Tenho uma carreira profissional. Entretanto, casei e tenho dois filhos.
A responsabilidade de educar estes, levou-me a uma reaproximação da Igreja. Senti, então, a alegria da redescoberta do caminho. O regresso às origens fazia todo o sentido. Hoje, sou dirigente do Corpo Nacional de Escutas – Agrupamento do Fundão (José Amaro, o lema do Agrupamento para o corrente ano escutista é: “Deus, Pão e Ternura”. Se tivermos de pagar direitos de autor, pagamos … não sei é quando).
MUITÍSSIMO DO QUE SOU, DEVO-O AO PADRE SOARES.
Para mim, não é possível falar do seminário sem falar do Padre Soares. O seminário “confunde-se-me” com o Padre Soares.
A seguir à minha mãe, o Padre Soares foi o adulto mais importante para mim, no período compreendido entre os dez e os dezoito anos.
Mais, ainda hoje, passados cerca de trinta anos, o Padre Soares é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Ainda hoje, sinto, de uma forma muito forte e viva, a sua presença.
Durante anos a fio, raros foram os dias em que, quotidianamente, o Padre Soares não me visitou nos meus pensamentos.
Após sair do seminário, durante bastante tempo, receei reencontrá-lo. Tinha medo que tudo tivesse mudado e que algo pudesse manchar as boas recordações, as imagens, as palavras, os sentimentos ….
Mas não. O Padre Soares continua igual a si próprio e eu, seguindo o seu conselho, não me envergonho de ser quem sou. Continuo muito igual ao que era, esforçando-me, cada dia, por tentar ser um pouco melhor.
Obrigado, muito obrigado, Padre Soares.
Para terminar, uma nota final e uma questão para ponderar:
- O seminário não representou um percurso fácil para muitos de nós e é preciso ajudar esses a fazer o reencontro positivo com o passado.
- Na nossa vida damos testemunho de fé e mantemo-nos fiéis às nossas origens e vivências? Ou isso é coisa do passado?
Sinto meu orgulho em dizer que andei no seminário. Cada vez mais, sobretudo quando consigo que o meu testemunho de vida seja condizente com tudo o que o seminário representa, em termos de valores e de caminho de vida. 
Um fraternal abraço para todos os verbitas.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Abílio, o sábio



José Teodoro Prata

A foto é dos finalistas de Teologia de 1950, na Guarda. Veio ter comigo, na sequência de um trabalho que fiz sobre o antigo pároco de S. Vicente da Beira, o Pe. António Branco.

Ao passar os olhos pelos finalistas, reparei numa cara conhecida, na fila de cima, o segundo a contar da direita.

É o nosso mestre de Latim e Grego, o professor Abílio, pessoa extraordinário em vários domínios.

Homem baixo e magro, dele se contava que, já padre ou à beira da ordenação, se apaixonara por uma espanhola, mais alta que ele, e abandonara tudo para a seguir. Decisão de homem íntegro, como depois o conhecemos, numa época em que a sociedade tolerava aos párocos uma vida afectiva de duplicidade: castidade na Igreja e amantes lá fora.

Depois espantava-nos com a sua indumentária: dois casacos (casaco e sobretudo) e dois sapatos (sapatos e galochas). Coisas extraordinárias para mim, que durante anos usara os sapatos do meu pai com solas novas de pneu que o Mudo da minha terra lhe deitara e que tantos estragos fizeram, entre os colegas, nos meus primeiros anos de seminarista.

Não me recordo se ele também foi meu professor de Português, no antigo 5.º ano, ou se esta história de passou nas aulas de Latim, já no secundário. Ao falar-nos de Os Lusíadas, transcendia-se completamente e, de forma exaltada, a bater o pé, indignava-se por alguns eruditos acusarem Camões de ter plagiado o poeta Virgílio e a sua Eneida. E jurava, esticando-se todo: “Se ele copiou a Eneida, escreveu um livro muito melhor!”

Sei que alguns dos meus colegas de Língua Portuguesa se passam quando leccionam Os Lusíadas, mas o Doutor Abílio transpirava de exaltação patriótica e imensa sabedoria, como percebi bem mais tarde. Indirectamente, ele ensinava-nos a essência do Renascimento: partir dos antigos, para os superar.
Ele foi o único professor doutorado que tive, durante muitos anos, mesmo mais tarde, no ensino superior. Cátedra da sabedoria bem merecida, pela forma como encarou e neutralizou uma contestação dos seus alunos, em 1974.

O 25 de Abril ocorrera há poucas semanas e, dentro do seminário, nós também vivíamos o entusiasmo da revolução, como era natural numa vila de longa tradição de lutas operárias. Pelos meados de Maio, o Governo Provisório acabou com as aulas aos sábados. Ora, nós tínhamos aulas de Grego ao sábado, pois fazíamos esta disciplina num só ano. Ficámos na expectativa se o Doutor Abílio viria ou não. Mas, à hora certa, o táxi da Covilhã apareceu na curva e estacionou em frente à sala de professores. Frustrados, viemos à janela, com assobios e apupos, mas retirámos, antes que ele nos visse.

Sentámo-nos nos nossos lugares e aguardámos. Ele chegou e disse: “Quando saí do táxi, ouvi alunos a protestar, mas tenho a certeza de que não foi nenhum aluno meu!” Desarmou-nos completamente. Ingenuidade ou sabedoria? Nalguns seres de excepção, elas são uma só.

Nota: Agradeço aos antigos e novos amigos tantos convites para o facebook, mas, definitivamente, esse não é o meu mundo.

Resposta à pergunta do G57

“Age, prega, representa e tudo faz como BOM PADRE. Porque não o é?”.

Como a colunita Diga o que (lhe) sabe bem é um bocado estreita vou pedir ao Vitor que me deixe responder no espaço nobre. Aqui vai a resposta muito limitada como não poderia deixar de ser, mas nem por isso menos honesta.

Entrei na SVD para ser irmão missionário e é isso que sou. Sou-o com alegria e gozo! É certo que a minha caminhada na SVD não foi muito certinha, mas foi a que foi e se algumas coisas há a lamentar isso não vem agora ao caso. Entrei e mandaram-me repetir a 4ª classe, o que representou uma certa frustração, mas fez-se. Iniciei o liceu no CEF e fui fazer os exames ao Liceu Nacional de Leiria. Com melhor ou pior aproveitamento as coisas foram andando... Terminado o liceu e o noviciado fui mandado para Lisboa estudar Teologia na UCP (houve antes uma não ida para o Brasil, mas deixemo-la de lado). Terminado o curso era tempo de fazer opções, corrigir a guinada clerical e voltar às origens. E foi o que fiz... enquanto alguns irmãos fazem a sua formação profissional e depois pedem para ser ordenados, eu (desculpem a originalidade) fiz o contrário. Depois da formação clerical específica voltei para as bases (o que para alguns foi uma espécie de despromoção, para mim não foi!), o meu lugar natural. E aqui estou... porque o fiz? para além de outras, que não vou mencionar, eu era/sou muito escrupuloso em relação à coerência necessária na vida sacerdotal (penso estar aí uma das causas da falta de vocações e da falta de credibilidade da Igreja nestes tempos, mas não interessa aprofundar isso aqui).

Aquilo que faço não o faço como “bom padre”, que não sou nem quero ser, mas como cristão, ao qual não tenho coragem de acrescentar o “bom”. Nesta linha tenho óptimos antepassados, a começar pelo próprio Cristo, que não foi padre, e por São Francisco de Assis. Foram simples leigos (um judeu e o outro cristão). Na minha província eu sou o único “povo”, visto que não pertenço nem ao clero nem à nobreza. E sou-o com todo o orgulho do mundo. E, socorrendo-me do velho e sábio princípio da subsidariedade, diria que quando dermos espaço real aos leigos nesta igreja, ela será mais humana/mais divina, mais alegre, mais gozosa, mais compassiva, misericordiosa e crística. Até lá... só nos resta caminhar, ainda que devagarinho. Jj-a

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Os amigos encontram-se em Tortosendo!...


(* desde 1986) 


...30 DE OUTUBRO DE 2010
SEMINÁRIO DO VERBO DIVINO DO TORTOSENDO
PROGRAMA: 
11 h -Encontro nas instalações do SVD – TORTOSENDO
12 h - Inicio da Eucaristia, com a participação dos nossos colegas, nos cânticos.
13 h – Almoço: Porco no Espeto c/Arroz de Feijão, seguido de café e digestivo.
(Inicio de tarde musical com guitarradas e concertinas do Minho e da Beira)
15 até às 17 horas, momento de lazer, com visita a uma exposição existente nas instalações, com equipamentos e recordações, desde o início da actividade no SVD – TORTOSENDO.
17 h – Concurso: "A melhor Jeropiga"(**), C/Magusto e carnes na brasa (BORREGO MEIMÃO)
** para concorrer cada participante deve levar garrafa de produção própria, não são admitidas Jeropigas compradas no comércio público (só privado)
(Continuação da animação musical até haver alento.)

TODOS OS ANTIGOS ALUNOS SÃO CONVIDADOS, POR ISSO SE CONHECES ALGUM QUE NÃO FOI AVISADO PASSA PALAVRA E MOTIVA-O PARA ESTAR PRESENTE.

É A MELHOR MANEIRA DE COMEMORAR OS 60 ANOS DO SVD EM PORTUGAL!!!
As presenças podem ser confirmadas para os seguintes contactos:
918738855- FERNANDO BAPTISTA
913100696- ZÉ EDUARDO
966652009- ZÉ HENRIQUES

919188156 - FERNANDO CARVALHO




INSCREVAM-SE NO FACEBOOK




Já agora, para quem ainda não conhece, veja o LUX MUNDI em formato pdf e o relato do encontro do ano passado aqui

ATÉ DIA 30 NO TORTOSENDO !!!